Toda entrevista é um
parto doloroso

Roberto Gomes
Ela sentou na poltrona com
as pernas – magrinhas, joelhos pontudos – bem unidas.
Abriu a caderneta, fingiu anotar alguma coisa, tentou pensar. Afinal, suspirou:
- Sabe, não gostei do seu
livro.
Ele, que não aprende
nunca, se surpreendeu:
- Não? Por que?
- Não sei. É que não
acontece nada...
- Nada?
- É. O personagem vai
mudando, pensando, lembrando, mas nada acontece. Quis escrever assim mesmo?
Ele respira fundo:
- Dizem que um dia o
Niemeyer levou um grupo de senhoras para conhecer Brasília. Elas acharam tudo
muito monótono, prédios quadrados, paredes brancas, ruas retas. Uma delas
perguntou: por que o senhor fez tudo assim igual, tudo branco, tudo cinzento?
Sabe o que ele respondeu? Só pra chatear, minha senhora.
Olhos perdidos de susto,
ela se debruça sobre a caderneta e rabisca nervosamente. Quando ataca com nova
pergunta – lida na caderneta? –, está com a testa coberta de suor.
- Tudo isto aconteceu
mesmo? Estas histórias são reais? É autobiografia, não é?
Ele se enche de paciência
e de espírito cristão e explica que autobiografia é um gênero
tecnicamente rigoroso, baseado em dados, datas e documentos. Seu livro é
um romance. Não é importante se aqueles fatos aconteceram ou não.
- Como não? – empunha o
lápis na vertical.
- Veja bem, de que modo
você poderia saber se algo narrado aí aconteceu ou não?
- Perguntando ao senhor,
ora!
- E quem garante que eu
vou dizer a verdade? Quem garante que eu escrevi a verdade? Já leu Garcia
Márquez?
Balança a cabeça
afirmativamente, mas não abre a boca. Não leu.
- Pois ele diz que tudo aquilo
que escreveu sobre Macondo foi contado – e inventado
– pela avó dele. O problema nosso – e a vantagem dele – é que não conhecemos a
avó dele.
Ela pára o lápis no ar,
aproxima-o da boca aberta. Se morder o lápis, pensa ele, mando sair
imediatamente. Ela não morde o lápis. Ele desiste de perguntar se entendeu.
- Há muita coisa aqui –
ela aponta o livro, que repousa no sofá, indefeso – que parece ser da sua vida.
- Claro. De mistura com
outro tanto que inventei. Ficcionista costuma ser delirante e mentiroso. Em
qualquer caso, você não pode saber o que de fato aconteceu e o que é invenção.
Aliás, este é o tema.
Assusta-se, separa e junta
os joelhos bruscamente:
- Tema? Do quê?
- Do romance. O tema não é
o que aconteceu, mas a memória, que é feita de coisas que lembramos, de coisas
que nos contaram, de coisas que inventamos, que imaginamos, de nossos delírios
e fantasias. Ou seja, os dados da memória não são objetivos. São,
na maior parte, inventados. Jamais saberemos. O importante é como as
lembranças, falsas ou verdadeiras, existem para nós. A objetividade é uma
tolice.
- Mas o personagem é o
senhor...
- De modo algum. O
personagem nunca é o escritor. O Paulo Leminski, aquele polaco – você deve
conhecer ao menos a pedreira, não é? –, escreveu certa ocasião que, quando um
autor escreve a palavra eu, já está mentindo. A primeira pessoa é mentirosa.
Aliás, o autor não existe. Não tem a menor importância. Só importa a avó do
Garcia Márquez, compreende?
- O senhor está brincando.
- Nunca falei tão sério na
vida.
Quando ele abre o jornal
no domingo seguinte, lá está a matéria que resultou dos rabiscos depositados na
caderneta. Debaixo da foto do seu livro, a vingança feroz e pequenina sob forma
de legenda: embora o autor negue, seu romance é autobiográfico.
Ele, que não aprende
nunca, jura que dará a próxima entrevista armado.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br