Os que falam e não dizem

 

Roberto Gomes

 

 

Na década de 1970, o jornal Pasquim consagrou uma expressão que se tornou marca de uma época. Tratava-se do fulminante “falou e disse”, com o qual se reverenciava alguma declaração redonda e perfeita.

Não é o caso dos políticos de que dispomos nesta triste república. Eles falam e não dizem. Estão à espera de algum Voltaire que desmascare suas frases frouxas, seu cinismo primário, sua cara de pau monumental. Ou de um Swift que se dedique a desvestir suas pequenas e grandes ridicularias. Trata-se, está visto, de um prato cheio. Os candidatos a escritor que se habilitem.

Eu, modesto fabricante de crônicas quinzenais, desejo apenas dar uma olhada oblíqua numa frase da agora ministra Marta Suplicy. Ela falou e não disse o seguinte: “O presidente me convidou para ser ministra do Turismo e eu aceitei, muito feliz da vida. De minha parte nunca houve nenhuma demanda. Para mim é grande desafio. Há muita coisa para ser feita”.

Vamos por partes. O mundo inteiro sabe que presidente não convida ninguém para ser ministro, muito menos um presidente como Lula, criatura hesitante e atarraxada entre pressões de todo tipo. Ele atende a grupos, concilia interesses, engole sapos, cospe nomeações. No caso, a reivindicação desta senhora e do PT paulista, que queriam um ministério. Primeira mentira.

A segunda mentira é ela dizer que aceitou feliz da vida. Primeiro, não aceitou. Abocanhou o que lhe serviram. Queria a Educação, se consolou com o Turismo. E precisamos esclarecer: ficar feliz da vida é privilégio de seres humanos normais e saudáveis. Por exemplo: gente que fica feliz quando o filho consegue emprego ou a vizinha tem um bom parto. Pessoas normais ficam felizes da vida ao experimentar alegrias simples que estão proibidas aos políticos. A euforia destes não tem nada a ver com felicidade, tem a ver com poder, troféu conquistado seja como for. É diferente.

E Marta continua falando e não dizendo. Afirma que não fez nenhuma demanda. Ora, ora. Todos sabemos das pressões que foram feitas sobre o presidente por ela e seus asseclas: uma sucessão de rasteiras, bordoadas e golpes acima e abaixo da linha de cintura. Os políticos falam e não dizem na suposição de que somos todos idiotas. Mentiu pela terceira vez e desrespeitou a inteligência dos eleitores.

Vem então o mote do sacrifício. Os políticos, sabemos, se sacrificam pelo bem público. Ela se diz diante de um desafio e que há muito a fazer. Talvez se trate do desafio de manter os poderes que conquista. Nada a ver com os problemas da pasta que assume, pois não se conhece uma só idéia, uma só contribuição, um único projeto capenga desta senhora para o setor que assume.

É o circo: a partilha insana de ministérios entre candidatos cuja única qualificação é a sede de poder. Ela queria a Educação, ficou com o Turismo. Outro queria ficar, mas saiu. Aquele queria um ministério de gordas verbas e acabou acomodado num orçamento raquítico. De comum entre eles, isso: querem. Este é o verbo do poder. Apenas querem. Se for a Educação, a Saúde, o Turismo ou as Águas Termais (deve existir este ministério; deixo a sugestão), pouco importa.

Como desisti desta gente, só me preocupa o uso da linguagem que praticam. Falam e não dizem. Falam uma coisa, pensam e fazem outra. Falam que está assim, mas está assado. Esperam que não saibamos o que acontece e declaram inverdades, malandragens, driblam a razão e o bom senso. E fica tudo por isto mesmo.

À corrupção do dinheiro, dos favores, dos cargos, dos votos, dos contratos, das verbas, das negociatas, das nomeações, devemos acrescentar outro malefício que os políticos produzem: a corrupção da linguagem. Ao ver deles, vale tudo. A linguagem do despiste. Do faz de conta. Se pegar, pegou. Se não pegar, a gente conta outra.

Que ninguém imagine que sou movido por implicância com dona Marta, já que ela é citada aqui apenas por ser uma síntese, um símbolo, um produto acabado da grande mentira nacional, cuja mais óbvia contribuição ética e política é a corrupção da linguagem, o que inviabiliza qualquer ética e qualquer política que mereçam este nome.

É isto aí. Falei e disse.

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