Zapeando jornais

Roberto Gomes
Zapeando pelos jornais, fico sabendo que Lula tomou providências contra a evasão de
jogadores brasileiros rumo à Europa. Convocou três sabedores das coisas da bola
e formou comissão que deverá estudar o problema. Os convocados são Luxemburgo, Scolari e Parreira. Dizem que dois outros serão
arregimentados.
Claro, podemos duvidar da utilidade
de tal comissão – aliás, de todas as comissões. Como impedir que rapazes vindos
de famílias pobres, cuja única chance na vida é explorar seu talento com a
bola, se mandem para o exterior? Se, ao final do segundo mandato, Lula resolver
trabalhar de torneiro mecânico na Alemanha alguém poderá impedir?
No mesmo jornal, um artigo
alerta quanto à fuga de cérebros para o exterior. Descobriu-se que, além de
brasileiros que limpam esgoto em Londres ou entregam pizza nos EUA, cresce o
número daqueles que, com formação universitária, rumam na direção de dólares e
euros. Não se trata, como já era usual, de grandes cientistas que se refugiam
no exterior. É gente nova, com mestrado e doutorado, na maior parte feitos em
instituições públicas.
Pois bem, Lula ou seus
ministros não deram uma só palavra sobre o assunto. Estão preocupados com a
fuga dos craques da bola, que produzimos aos magotes e sem dinheiro público.
Abro o jornal em outra
página e leio sobre o lançamento da TV digital. O problema é que um certo adaptador
é oferecido a preços aviltantes. Lula, prestimoso, ordenou um crédito de R$ 1
bilhão destinado a apoiar a rede varejista, pois, disse ele, é preciso participar
desta “revolução”.
É curioso como recursos
volumosos saltam das burras do governo com facilidade quando o assunto são computadores,
televisões, equipamentos eletrônicos em geral. Há no ar uma fúria em equipar
todas as escolas com estas máquinas.
Não discordo, mas fico me
perguntando: quando teremos recursos para que as escolas – todas – tenham boas bibliotecas?
Ou será muito arcaico equipar escolas com livros?
Claro, computadores são
equipamentos sensacionais. Eu mesmo não vivo sem o meu. Mas é possível imaginar
escolas sem bibliotecas? É possível imaginar que alguém saiba explorar a
informática se não tiver o hábito da leitura? Sem formação rigorosa, os
computadores são meras maquinetas usadas para catar informações que não passam
por um filtro inteligente.
O Brasil, como se sabe, lê
pouco e mal. Ainda que a informática seja um instrumento notável, sem leitura
de livro não se vai além de colagens mais ou menos mecânicas do que se recorta na
rede. Reflexão, senso crítico e capacidade de análise não brotam de teclados e
telas. Exigem uma formação de outra ordem.
Assim, zapeando
pelos jornais, encontro novo desencontro. São as campanhas de combate à
pirataria digital. Nada contra. Mas me parece estranho que ministros e ministérios,
bem como a Polícia Federal, se movimentem para garantir o faturamento de Bill Gates
e não sejam capazes de impedir a indústria das cópias xerox de livros, que
estão por toda parte, sobretudo ao lado e dentro das escolas e universidades.
Vejam que não é preocupação arbitrária. Cópia xerox de livro é crime previsto
em lei. Curiosamente, no entanto, a propriedade autoral de gigantes da
informática é defendida com tropas de elite na rua, enquanto máquinas xerox
roubam autores, editores, livreiros, distribuidores – e, sobretudo, roubam e
enganam os alunos, que convivem com um simulacro de livro, mal cheiroso e
descartável. Com a cumplicidade de professores.
Conclusão. Os cérebros
podem ir, mas os craques da bola não. Televisões digitais e computadores produzem
revolução cultural, mas livros são resíduos arcaicos. Piratear a Microsoft
coloca a Polícia Federal na rua, mas a pirataria de livros prospera no interior
de escolas e universidades.
Aliás, os jornais
publicaram pesquisa internacional mostrando que estudantes brasileiros têm
péssimo desempenho em ciências e ficaram em último lugar em pesquisas anteriores
que mediam a habilidade de leitura e o conhecimento de matemática.
Como se vê, difícil de
entender. Ou óbvio demais.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br