Voando em berço esplêndido

 

 

Roberto Gomes

 

 

Sendo feriado, chove.

Os feriados têm a mania de atrair frentes frias, ventos fortes, baixas temperaturas, chuvarada pluvimedonha, como diria o Drummond. Eu havia planejado sair de bicicleta pelo bairro, que está deserto e silencioso, mas cancelei as pedaladas. Estou trancado em casa, olhando através da janela, que vibra com as pancadas de vento. Lá fora, ficam as ruas por onde eu andaria na magrela. Irreconciliáveis, eu e o mundo, a bicicleta e as ruas desertas.

Em todos os casos, sei que estamos ricos. É o que ouço há dias, na voz rouca de um presidente que se imagina locutor de quermesse. Diz ele que achamos uma mina de ouro negro que vai do Rio de Janeiro a Santa Catarina. É o pré-sal que, sendo palavra recente, a recente reforma ortográfica me deixa sem saber se leva ou não hífen. Vai com hífen. Aliás, só no Brasil se poderia criar tamanha confusão com o hífen. Em inúmeras línguas, em particular no alemão, as palavras são amontoadas umas após as outras, sem hífen, e todo mundo se entende. Em português, se faltar ou sobrar um hífen, a catástrofe está instalada. Mania brasileira: valorizar o acidental e ignorar o essencial.

Mas eu queria falar é de nossas riquezas, não de ortografias.

O Brasil não lembra casa de pobre? Bastou anunciarem as riquezas caídas do céu (ou mergulhadas no oceano) para que todos começassem a brigar. Parece filme do Mazzaropi. Um governador quer tanto, outro quer mais um pouco, o terceiro não admite ficar de fora. E o diabo é que nem se sabe qual o montante a ser fatiado entre os interessados. Será que vai sobrar para nós?

Bom, sempre sobra para nós, pois o locutor de quermesse, aos berros, anunciou no dia dedicado ao patriotismo – no restante do ano o patriotismo é opcional, como sabemos – que irá comprar da França 36 caças Rafale e, pelo que ouvi, uns submarinos. Quer dizer, mal surgiu, a grana do pré-sal já virou algo como a CPMF – poderemos voar ou submergir, mas a saúde pública continuará a lástima de sempre.

Os franceses comemoraram. A fábrica Dassault, que produz os tais jatos, estava prestes a falir e agora nada em dinheiro – e nós, nada em dinheiro, me sopra um antigo trocadilho infame. Acho que foi a maneira que o Brasil encontrou para comemorar o ano da França no Brasil.

(Entre parêntesis, informo que continua chovendo. Do jeito que chove, terei que passear de submarino e não de bicicleta.)

E o que faremos com o submarino? Não sei. Mas estamos nos repetindo. Lembro daquela antiga sátira do Juca Chaves, Brasil já vai à guerra, ironizando a disputa entre a marinha e a aviação pela posse de um porta-aviões. Como circularia no mar, seria da marinha; como receberia aviões, seria da aviação. Já não lembro com qual das forças armadas ele ficou, o que não alterou em nada a minha vida nem a do país.

Com a chuva aumentando, me distraio fazendo contas. Dizem que os aviões custarão 5 bilhões de euros. Quanto isso representará em casas populares, esgoto, assistência médica, educação, estradas? O leitor acha que estou preocupado em excesso?

Tudo bem. Não estou para discussões, quero paz. Aliás, o presidente, rouco e exaltado, meteu no seu discurso a ressalva de que não é um homem de guerras. Nesse caso, pra que tanto armamento? Defesa? Só se for contra vizinhos igualmente pobres, pois qualquer país rico poderia nos invadir em menos de duas horas. Sem o Tom Cruise.

Eis como, nesse dia no qual não andarei de bicicleta, não consigo resolver minha perplexidade. A grana do pré-sal será fatiada por governadores diversos e pagará as contas de aviões e submarinos. Quanto ao dinheiro para a saúde, os brasileiros, sem defesa aérea ou naval, acabarão engolindo – brasileiro engole fácil, sabemos – uma nova CPMF que está para ser aprovada por aqueles senhores ilustres e excelentes e nobres de Brasília.

Enfim, chove.

 

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br