Viajando

 

 

Roberto Gomes

 

Por mim, viveria viajando. Aliás, não faço outra coisa, segundo a opinião dos que vivem comigo. Viajo parado, viajo andando, viajo quando não faço nada. Viajo sobretudo pela manhã, quando todos ainda dormem, sentado num canto da sala, com um livro nas mãos. Viajo escutando rádio, ouvindo música, ou cuidando das árvores que tenho aqui no quintal.

Mas gosto mesmo é de ir de um lugar para outro, pegar estrada. Ver e rever lugares. Sobretudo de ver o que nunca vi e de ver pela primeira vez o que já vi dezenas de vezes. Só não viajo de avião porque sofro daquela síndrome de que sofrem alguns sócios ilustres do clube, como Oscar Niemeyer e Ferreira Gullar, além do meu querido amigo Sergio Faraco. Ainda mais nestes tempos bicudos em que as chamadas aeronaves andam em mãos pouco hábeis, para dizer o mínimo.

Mas isto é outra história. Queria dizer que, viajando, preciso levar um pequeno arsenal na bagagem. Sendo alérgico a perfumes, amaciantes, poeira doméstica, devo levar meus dois travesseiros com suas fronhas absolutamente livres de químicos ou fungos que não me sejam familiares. Coloco-os numa maleta junto com um cobertor, um lençol e estou pronto.

Nem tanto. Preciso levar também um radinho de pilha. Os hotéis, mesmo os melhores, não oferecem rádios de cabeceira – quando muito, há aquele som ambiente pavoroso. Por isso, levo o radinho no qual escuto música, noticiários, papos vadios madrugada adentro, sem o que a tarefa de dormir me parece insuperável.

É assim que viajo. Deixo o resto para trás – horários, compromissos, agendas, preocupações, contas a pagar e receber –, mas não meus travesseiros e meu rádio. Sem eles minhas férias ameaçam virar um pequeno tormento.

Bom, acontece que dia destes fiz mais uma destas circuladas por Santa Catarina – estava com a cabeça cheia, resolvi sair pelo mundo. E o mundo, no caso, significa Blumenau e Florianópolis. Visito amigos ou não visito ninguém. Apenas revejo lugares e ando pelas ruas para conferir se tudo continua em boa ordem.

Pois bem, quando cheguei em Florianópolis, percebi que um dos meus travesseiros ficara no hotel em Blumenau. Levei um choque, ou meio-choque, pois um dos travesseiros continuava comigo. Fui ao telefone e, de ramal em ramal, acabei conversando com dona Dolores, a governanta do hotel, que, muito gentil, informou que o travesseiro lhe fora entregue pela camareira. Estava com ela, bastava que eu lhe desse meu endereço e ela o colocaria no correio.

Foi quando começou o problema. Quando voltei para casa, nada do travesseiro. Telefonei em busca de dona Dolores, que, sempre educada e gentil, me explicou que o travesseiro já estava embalado, endereçado, pronto para ser despachado, mas...

- Mas?! perguntei, aflito, como se temesse ter que pagar algum resgate.

Ela sentiu meu susto e explicou:

- É que os correios estão em greve.

Respirei aliviado, mas nem tanto. Agradeci pela gentileza e ambos fizemos votos de que a greve logo terminasse.

Bom, a greve continuou. Meu travesseiro – embora embalado e endereçado – estaria em alguma dispensa longínqua, por detrás de uma daquelas portinholas pelas quais passamos nos corredores de hotel sem saber o que podem esconder. No caso, meu travesseiro, que, finda a greve, ainda não retornou para casa.

Está bem, tenho o outro. Mas não é a mesma coisa. Sinto-me meio órfão e temo que, se esta situação de greve continuar, irei a Blumenau buscá-lo. Ele me acompanha há anos, já fiz a ele muitas confidências, sabe a meu respeito mais do que as pessoas que convivem comigo. Já viajamos muito, por diversos lugares do mundo, todos no Brasil, como diria o Millôr. Guarda um repertório de meus sonhos e pesadelos, já não se assusta com minhas insônias, não teme quando levanto no meio da noite para dar uma volta pela casa e não se irrita quando acendo a luz e fico lendo noite adentro.

Claro, há o outro. O outro travesseiro, quero dizer. Mas este, ia me esquecendo de informar ao leitor, tem um temperamento diferente. É um travesseiro amigo, mas um tanto introspectivo, voltado para si mesmo. Serve de apoio para minhas leituras, torna o repouso mais macio, mas não é de muita conversa.

Aquele que deixei no hotel é que me faz falta, descubro agora, no meio da noite, pensando em como estará suportando a solidão de uma prateleira de um nono andar, sem ninguém com quem conversar, sem quem o ajeite com carinho e sem que ele possa viajar nos sonhos que, sem ele, não consigo sonhar.

 

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