Vai votar obrigado? Obrigado

 

 

Roberto Gomes

 

No dia 5 de outubro os brasileiros irão às urnas. Filas nos pontos de ônibus, automóveis pela cidade, sessões eleitorais congestionadas. Em ordem, digitarão seus votos nas maquininhas eletrônicas, orgulho da criatividade nacional.

Esta corrida às urnas, infelizmente, resulta de uma proibição. O voto é obrigatório, ou seja, não se pode deixar de votar. O transgressor está sujeito a multa e alguns encalhes burocráticos, embora nada de muito pesado ou incontornável.

Mas, por que a obrigação de votar? Diante de tanta agitação eleitoreira, me sinto vítima dessa pergunta solitária e pareço ser o único que se faz tal pergunta. Todos estão convencidos de que é evidente que votar é uma obrigação.

Já pensei assim. Quando tinha dezenove anos. Nesta época, encontrei um sujeito, um cidadão francês que lecionava na Aliança Francesa, onde eu trabalhava. Estávamos às vésperas de uma eleição e eu reclamei que deveria fazer uma viagem para votar. Ele me indagou, surpreso:

- Mas, se está contrariado, por que vai?

Enchi o peito e respondi, como se quisesse ensinar a ele uma lição de democracia:

- Porque é obrigatório.

O espanto do francês subiu de intensidade. Ele ajeitou um dos seus intermináveis cigarros Galois entre os dedos moles e me perguntou:

- Por que é obrigatório?

Como não me ocorreu nenhuma razão, respondi com um fato, como fazem os que não têm razão alguma a dar:

- É lei. No Brasil é obrigatório votar.

Ele tornou a colocar o Galois na boca, deu uma tragada debochada e me fulminou:

- Que país estranho! Votar é um direito, não uma obrigação. Um direito você exerce ou não, cabe a você decidir.

Soltou a baforada cinzenta do Galois na minha cara e arrematou:

- Que estranha forma de democracia!

Era claríssimo, descobri. Era um direito democrático. E não é democrático obrigar alguém a exercer um direito. Aprendi neste dia que não era sem motivo que a democracia moderna fora uma invenção francesa.

Assim como às vésperas deste 5 de outubro próximo, em todas as eleições posteriores lembrei deste meu amigo francês. Quando vejo estas longas filas, este povo arrumado para votar, alguns com a melhor roupinha de domingo, essas hordas caminhantes, votantes, cumpridoras de obrigações, sinto que não avançamos muito.

Apesar do final do regime militar, não fomos capazes de abolir esta obrigação nefasta. As pessoas votam em comboios previsíveis, pois é obrigatório votar. Não fosse, visitariam um parque, fariam um churrasco, jogariam uma pelada, iriam à casa da comadre etc. Mas, sendo obrigação, irão votar. Aos magotes.

Com que convicções? Quais candidatos ofereceram idéias para o debate? Nenhum. Alguns poucos ofereceram projetos improvisados, propostas sedutoras, promessas inviáveis – é o máximo que conseguem. Idéias, jamais. E a convicção só pode proceder de idéias. Sem elas os partidos não significam nada e os candidatos não passam de um produto marqueteiro.

O voto obrigatório serve apenas para conduzir a população, em grupos domesticados, às urnas. Não ensina nada. Não educa. O que educa é a liberdade. No caso, poder escolher entre votar ou não votar e, decidindo-se pelo voto, em quem. Dos atos de liberdade, o individuo e a sociedade saem fortalecidos. Das obrigações, não. De resto, é absurdo deduzir uma obrigação de um direito. Ninguém pensaria, por exemplo, em concluir, do direito que temos à felicidade, a obrigação de sermos felizes. Do direito de greve, a obrigação de fazer greve.

Voto obrigatório serve apenas para formar currais eleitorais – em outros tempos, sob o chicote do dono da fazenda e, hoje, sob as carícias do bolsa família.

Por isso, só me entusiasmarei com uma reforma política se ela começar com a seguinte idéia: o voto é um direito democrático do qual os cidadãos farão uso ou não segundo suas convicções.

Talvez assim cheguemos algum dia, como ironizou meu amigo francês, a 1789.

 

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