Uma volta na praça

 

 

Roberto Gomes

 

 

Abro a janela e lá está a praça, vazia e silenciosa. Fico frustrado com tamanha quietude, mas continuo atento. Sempre acontece alguma coisa na praça. Analiso o gramado e as árvores, os dois campos de areia – um para futebol, outro para vôlei. Após a rua, outra praça. Ia esquecendo de avisar: são duas praças. Esta com as canchas de areia e, mais abaixo, a outra, com árvores, a grama cuidada, canteiros floridos. Em alguns finais de semana, se enche de japoneses que, muito diligentes, passam o dia cavoucando a terra, plantando, limpando, podando. Conversam pouco, os japoneses, e trabalham muito. Pertencem a uma religião e se dedicam a cuidar da praça, em cujo centro há um monumento com o busto do fundador da seita. Cuidam dela como se fosse sua casa – e deve ser.

Outros personagens, ausentes no momento, costumam circular por aqui. A um deles eu chamo de Almirante. Trata-se de um senhor de andar lento, solene, às vezes fumando um cachimbo com o qual azula o ar a sua passagem, conduzindo um cão labrador. O cão já é idoso, bastante gordo e lerdo, e meio surdo. Por isto o Almirante se dirige a ele aos gritos, que ouço daqui:

- Vem! Vem! Vamos andando!

Hábito que terá origem na carreira militar que atribuo a ele. O labrador – se bem entendi, se chama Bill – arrasta-se teimoso, obedecendo contra a vontade, e caminha na direção do Almirante, que segura o cachimbo com majestosa solenidade, como se percorresse o convés de um imenso navio sob seu comando.

Em certos dias, o Almirante vem acompanhado de sua esposa, que traz a passeio um pequeno cachorro que perdeu o movimento das pernas traseiras. Colocado numa espécie de carreta com duas rodas, não parece tão exausto quanto o Bill, embora lhe faltem as pernas.

Numa casa verde, mora o pintor. Pequeno, parece ser de temperamento alegre e usa boné. Um boné de pintor. Num avarandado, expõe suas telas. São paisagens, flores, casarios. Vejo-o de costas, curvado sobre uma mesa, misturando tintas. Às vezes sai de casa com uma menina de uns dez anos, sua neta, e se dirige à padaria ou ao supermercado, de onde volta com duas ou três sacolas. Parece feliz o pequeno pintor, tão bem posto em seu lugar e, no entanto, colocou a casa à venda. Não entendo. Ele e a casa se assemelham tanto que, se ele a vender, temo que tudo o mais dê errado nesta praça.

Duas vezes por dia, sempre no mesmo horário, um sujeito sisudo, acompanhado por dois poodles, cruza a praça em passos firmes. São passeios rápidos, como se os três estivessem indo a algum lugar para resolver negócios urgentes. Os poodles andam, correm, latem para os cães da vizinhança, mas obedecem aos comandos que o homem lhes dá e não perdem o rumo.

Há também a turma que vem jogar futebol – crianças ou operários que trabalham nas construções da redondeza. Volta e meia, surge aqui o homem gordo que senta num tronco junto à calçada – abre e fecha umas pastas, confere papéis, e logo vai embora, como se não tivesse nada a ver com a praça. Ao final da tarde, jovens estacionam dois ou três carros, de onde descem com latas de cerveja nas mãos. E passam o resto do dia conversando às gargalhadas e ouvindo em alto volume algo que soa como bate-estacas: tunxi! tunxi! tunxi!

Nos finais de semana, crianças, pais, mães, bicicletas, carrinhos de bebê, guinchar de balanços, choro de um menino que deu um tropeção e despencou no chão, gritos agudos de meninas em correria – e o ar de cansaço dos pais, arriados pelos bancos, tentando saber de onde aquelas crianças retiram tamanha energia.

Quando a noite cai, algum carro se camufla por debaixo das árvores. Um homem solitário passa horas olhando o nada – acho que nem chega a pensar e talvez nem esteja ali. Grupos de amigos conversam e há uns vizinhos que sempre arranjam motivo para comemorar ou discutir quando tudo o mais é silêncio.

É quando me ocorre uma preocupação: e se alguém ficar intrigado com o sujeito que sai aqui de casa todos os dias, atravessa a praça e some a caminhar pelo bairro? Retorna uma hora depois, subindo os lances de escadas aos pulos, fingindo ser o jovem que não é mais. Temo que de uma das janelas em volta alguém possa observá-lo e se perguntar:

- Quem é o tipo?

Neste ponto, e sem resposta para esta questão, resolvo que já fui longe demais.

Fecho a janela. Fecho a crônica.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.b

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