Um gato, um cão e outros
seres humanos

Roberto Gomes
Súbito, lá estava o gato.
Não que houvesse algo de
estranho em surgir um gato ao lado do portão daquela casa que parecia de
brinquedo, com tijolos à vista, beirais fantasiosos, varanda ampla com chão de
tábuas largas – além das árvores, cercas vivas, gramado e flores. Neste cenário
de ilustração de antigo livro de histórias infantis, não surpreendia que
surgisse o gato.
Mas era um gato – e isso
marca alguma diferença.
Um gato são dois olhos.
Fixos, penetrantes, devastadores. Destes olhares que parecem dizer que sabem
mais do que estamos vendo e do que podemos imaginar. E, no caso, se tratava de
um gato de uma pelagem nobre, estofada, oscilante ao deslocamento de ar que os
carros provocavam ao passar em alta velocidade na avenida em frente. O que não
parecia afetá-lo de modo algum.
Não havia nada de errado
com aquele gato, como não há com os gatos em geral, imagino. Mas fiquei
intrigado e por isso atravessei a rua e passei a observá-lo lá da outra calçada.
Ele também me olhava, mas com olhos de gato. Ou seja, não me dava a mínima importância. Os gatos se bastam – não precisam de
donos, de casa, nem mesmo de carinho. Não precisam de alguém em especial, mas
apenas de alguém muito especial que são eles próprios.
Foi quando, levado por
minha incurável falta de imaginação, que lembrei dos cachorros. Ou do cachorro,
ser abstrato, essencial. O cão. Um cachorro nunca se basta. Está sempre agitado
em busca de um afago, de um olhar, de um biscoito. Cachorro é bicho muito
doido, piradíssimo, que corre de um lado para outro
sem cessar. Bicho atarefado mesmo quando vira-lata e desocupado. As cachorras
aqui de casa, por exemplo, latem para tudo que se move, inclusive os aviões que
passam rumo ao aeroporto.
Não é o caso dos gatos.
Nem avião, nem mendigo, nem campainha ou buzina os tira da quietude. No máximo,
saem do sério por causa de alguma gata, mas com certa preguiça e indolência,
nem sempre estão dispostos; mesmo seus amores parecem subordinados a sua missão
principal, ou seja, ser apenas isso: gato.
E lá fiquei eu no outro
lado da rua, como se não tivesse nada a fazer na vida, relaxado e vagabundo
como um gato, a olhar para o gato, a pensar em gatos e cachorros. Foi depois de
algum esforço que resolvi retomar minha caminhada.
Tenho mais o que fazer,
disse a mim mesmo, no melhor estilo cachorro. Procurei inventar ocupações para
minha pobre cabeça, já exausta de tantas cabeçadas, agitei minhas pernas e fui
andando. Para onde? Não sabia. Os cachorros sempre me parecem criaturas muito
ocupadas, certos de onde vêm e para onde vão, mas naquele momento eu não
conseguia tomar qualquer decisão a respeito do rumo que iria tomar.
Foi só então que me
lembrei do Nasko. Nasko,
explico, era um husky soberbo,
belíssimo, que viveu aqui em casa até ficar velhinho e morrer. Era nobre, orgulhoso, independente. Não obedecia a ninguém,
quando muito fazia de conta que levava minhas ordens a sério e se afastava sem
me dar a mínima. E seguia fazendo tudo do jeito que
lhe parecia melhor.
Mas Nasko
era um husky e os huskies,
estou convencido, não são cães, são lobos. Começa que não latem ou latem muito pouco. São lerdos mas determinados. Não são
agitados. Sabem que são admirados pela beleza, se bastam, não vivem em
correria. E tem olhos – era o caso do Nasko – azuis e
devoradores, que parecem esconder coisas que jamais saberemos.
Nasko – como não lembrei antes! – fui pensando enquanto
cadenciava melhor minhas passadas, diminuía a pressa – afinal, neste mundinho
ingrato, não há muitos lugares aonde ir ou onde se deva chegar com afobação. Nasko, Nasko. A criatura mais
nobre e aristocrata que conheci nesta vida.
Enfim, entre os seres
humanos, gênero no qual há muito incluo gatos e cachorros, há espaço para se
admitir criaturas auto-suficientes e narcisistas como os gatos e doidinhos de
pedra cheios de alegria e de carências como os cachorros.
O mundo é muito variado,
como sabemos.
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