Tudo
sob controle, mas aquecendo

Roberto
Gomes
Ele,
Anacleto, conferiu no relógio e, sendo sexta-feira, achou que estava na hora de
um cineminha. Virou-se para Ana Lúcia e convidou:
-
Que tal um cineminha?
Para
seu espanto, ela, que adora cinema, hesitou:
-
Cineminha?
-
É. Aquela tela, lembra? Grandona, no escurinho, poltrona macia. Pipoca.
-
Mas hoje a gente já saiu cinco vezes de casa.
Ele
não entendeu:
-
Sim, fomos trabalhar, fomos ao supermercado, levar as crianças na escola. Merecemos
um cineminha.
-
Também acho. Mas... tem o aquecimento global, entende?
-
Não entendo.
-
Olha.
Ana
Lúcia entregou a ele um e-mail que recebera, um destes que circulam pela
Internet. Ele leu no item apontado por ela:
-
“Diminua o uso do veículo particular, faça-o de forma eficiente. Não viaje só,
organize translados em grupos ou em transporte coletivo.”
-
Tá vendo? – ela parecia desolada –. Diz aí que você “poupará 0,5 kg de dióxido
de carbono por cada 1,5 km que não conduzir! Cada 4 litros de
combustível poupado retira 9 kg de dióxido de carbono da atmosfera!”
Ele
se sentiu um criminoso. Seu cineminha e seu Chevette 82 colocavam o planeta em risco.
-
Podemos convidar nossos vizinhos, sugeriu. Transporte coletivo. Que tal?
Ela
leu o item seguinte:
-
“Calibre satisfatoriamente os pneus e regule o motor para economizar gasolina”.
Nós esquecemos de regular o motor do Chevettinho e os nossos vizinhos, Deus me
livre! Já viu a fumaça que o carro deles faz?
-
É mesmo, ele concordou. Nada de cinema, então.
-
Infelizmente.
-
A gente poderia fazer um lanche aqui em casa mesmo – disse ela.
Ele
advertiu:
-
Mas sem carne. Veja só o que está escrito aqui: “Produzir um quilo de carne
gasta mais água do que 365 duchas.”
-
Nada de carne?
-
Nem de televisão, ao menos enquanto discutimos o que fazer. Veja esta:
“Desligue a TV, rádio, luzes, computador, se não estiver usando”.
Anacleto
levantou-se na poltrona e desligou a televisão. Na escuridão da sala,
precisaram acender um abajur para continuar consultando a relação de proibições:
-
“Modere o consumo de latas de alumínio”, ela insinuou.
-
Eu não consumo latas de alumínio. Consumo cerveja. Aliás, acho bom a senhora não usar a máquina de lavar roupa, a não ser “quando estiver cheia e reutilizando a água”.
E prefira plantas nativas.
-
Por que?
-
Consomem menos água.
-
E o que são plantas nativas?
-
Depois a gente vê no Google. Olha esta aqui: “Não esbanje guardanapos, papel
higiênico. Use papel reciclado e dos dois lados.” – ao que ele perguntou,
intrigado: Há papel higiênico reciclado que pode ser usado dos dois lados?
-
Deixa de piada boba! Vamos tomar um banho e depois...
-
Sei não. Não temos banheira, o que economizaria sete mil litros de água por
ano. E o chuveiro precisa ser desligado enquanto nos ensaboamos. Banho com água fria é mais saudável para você e para o
planeta.
-
Nem brincando! – Ana Lúcia levantou-se do sofá – Então, vamos assim mesmo para
o quarto, sem banho.
Abraçaram-se
e foram para o quarto. Jogaram-se na cama. Mas ele interrompeu bruscamente aquilo
que as aulas de educação sexual chamam de preliminares e, levantando-se, disse:
-
Já pensou que a população mundial é de 6,6 bilhões de pessoas? São 3,3 bilhões
de relações potenciais duas vezes por semana. 277,2 bilhões por ano. Já pensou
o que isso libera de energia? Além disso, sexo produz certa poluição sonora. E sexo
dá fome e, com fome, come-se e bebe-se mais...
Ana
Lúcia puxou Anacleto pelo braço:
-
Chega! Amanhã a gente pensa no planeta!
Naquela
noite, o aquecimento global subiu alguns pontos, ao menos nas redondezas
daquela cama.