Todo ex- é definitivo

 

 

 

Roberto Gomes

 

Poucas palavras são mais enganosas do que a pequenina ex. Dizem os dicionários que desde o século XIX este prefixo tem sido usado para indicar, sempre com hífen, que alguém deixou de ocupar cargo, função etc.

É uma definição inofensiva, mas perigosa. Ela implica que se trata de algo que um dia foi, mas passou. Terá passado? Acho que não. Alguém ou algo referido por um ex está sempre presente. Por exemplo: ex-mulher. Nada mais definitivo, inacabável, incontornável, colado para sempre ao ex-marido do que uma ex-mulher – e vice versa, me apresso a acrescentar antes que alguma feminista (ou ex-feminista, tanto faz) me escreva um e-mail cheio de indignação.

O ex é algo (lugar, cargo, profissão) ou pessoa (mulher, marido, sócio, colega de escola) para sempre dependurados em nossa vida e não em nosso passado. Por exemplo: sujeito se aposenta e, por mais que se diga um ex-professor ou ex-torneiro mecânico, será para sempre um professor ou um torneiro mecânico. O leitor conhece algum ex-padre ou ex-seminarista? Não conheço nenhum. Basta abrir a boca ou fazer um gesto e já sabemos que o ex é apenas um penduricalho retórico, uma explicação enganosa. O ex é aquilo que fica para sempre.

Tanto é verdade que nunca indicamos com o prefixo ex aquelas coisas que efetivamente deixamos para trás como parte de um passado que se foi. É descabido se referir a alguém, o Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, como um ex-bebê – e ele um dia foi um bebê, acreditem. Portanto, o ex não indica o que foi. Seria absurdo escrever ou dizer algo assim: “o ex-menor de idade, hoje com 75 anos...”. E por um motivo simples: esta condição (menor de idade) acabou mesmo, para sempre. Só destacamos com um ex aquelas qualidades ou títulos que permanecem, ou seja, que não são ex-qualidades. No caso em pauta, o ex-presidente FHC. Ninguém no planeta tem pose mais clara e inequívoca de ex-presidente do que ele, já que continua agindo e falando e pontificando como presidente, para desespero de desafetos e de outros ex-presidentes que se imaginam mais presidentes do que ele, inclusive o Lula.

O ex é, portanto, o atual. O jogador Romário é um dos mais notórios ex-maridos que se conhece. A lista de suas ex-mulheres é imensa e exigente. O Lula é um ex-torneiro mecânico. É verdade que ele tenta aqui e ali fazer gestos inspirados em ex-presidentes – a política econômica ou gestos insinuantes com as mãos, por exemplo – mas sempre acaba colocando em suas representações o traço inconfundível do torneiro mecânico. O que não é ruim nem bom, explico antes que algum ex-companheiro se ofenda. É apenas uma marca.

Uma das comprovações do que digo – por mais incomprováveis que sejam as coisas que digo – são os ex-gordos. Jamais conheci algum. Um gordo é antes de tudo um convicto. Despreza regimes, balanças e níveis de colesterol. Um gordo é um satisfeito consigo mesmo – ocupa um espaço maior do que os outros mortais e se julga merecedor deste privilégio. Não abriria mão desta condição por nada deste mundo.

Por isto os gordos não emagrecem nunca e os regimes são inúteis para eles. Quem emagrece são os ex-magros – que só por isto mostram que continuam magros ou ex-magros, o que dá no mesmo. Estes se sentem desconfortáveis com o diâmetro que ocupam nos elevadores, com a quantidade de pano que gastam nas roupas, com os pratos que devoram. Um gordo genuíno se farta em comer e acha pouco, acha natural, tudo está em ordem. O ex-magro se tortura, pois se sente infiel à sua condição de ex e sabe que não é gordo. Por isto enfrenta regimes, balanças, exames de sangue e acaba emagrecendo. Se não emagrece é porque, ao contrário das evidências, nunca foi um verdadeiro magro. Ou seja, não é um ex-magro.

Daí se deduz que o ser humano é imutável. O prefixo ex indica que não mudaremos jamais. Seja como professor, torneiro mecânico, presidente ou gordo, o que fazemos ao longo da vida é manter ou retornar à condição de ex. Nossa essência secreta, nossa verdade.

Não faz sentido? Há muitas coisas sem sentido entre o céu e a terra. É o que me dizia um amigo, aflito com as investidas da ex-mulher, da qual se separara há vinte anos.

- E o que você vai fazer? perguntei.

- Voltar a viver com ela. Dá menos trabalho.

Como vemos, uma ex-mulher e um ex-marido.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br