Terto Mirandinha, sexólogo corporativo

Roberto Gomes
Aconteceu na Espanha, mais
precisamente na cidade de Mérida, ao sul. Uma mulher, autoproclamada
vidente, espalhou panfletos pela cidade dizendo-se capaz de lidar com o futuro
e o passado em iguais condições e, de quebra, resolver problemas financeiros
dos consulentes. Até aí, nada diferente do que vemos por aqui.
Acontece que esta senhora,
a pretexto de purificar e aumentar a riqueza dos clientes, os induzia a deixar
dinheiro e jóias em seu consultório por algumas noites, quando seriam abençoados,
sob rezas e esconjuros da mais variada ordem e de transcendental valia. Talvez
desmaterializadas pela força das rezas, algumas jóias desapareceram.
Acrescento um detalhe: a
tal mulher é brasileira.
Fosse aqui, ela passaria
despercebida, ofuscada pelo espetáculo do crescimento dos cartões corporativos
e dos dólares na cueca. Para ter sucesso lá fora, precisaria levar consigo
outras tecnologias nacionais, entre elas a impunidade e o espírito complacente,
especialidades do país.
Em Mérida, a vidente acabou
presa e parte das jóias e do dinheiro retornou aos bolsos de seus ingênuos
proprietários, que, se não tiveram sua fortuna acrescida, ao menos não a
perderam de todo.
Conto isso para revelar que
aqui na Vila ocorreu um caso assemelhado que só não chegou às páginas dos
jornais porque nós brasileiros não costumamos valorizar os produtos nacionais.
O episódio me foi contado pelo Cego Tião, dono do boteco mais badalado do
pedaço e criatura de integridade acima de qualquer suspeita.
Deu-se o seguinte. Terto Mirandinha, sujeito que vivia de pequenos
expedientes, golpes no jogo de sinuca, bilhetes premiados da loteria federal,
fábrica de vale transporte, descuidos, chantagens e compra e venda de
mercadorias roubadas, certo dia resolveu renovar. Cego Tião jura que esta
febril iluminação eclodiu na cabeça de Terto
Mirandinha ali mesmo, junto ao balcão, após cervejas e caipirinhas.
Tião explica:
- Ele chegou no balcão e
me disse: Tião, golpes pequenos não levam a nada. É preciso pensar grande!
E, dito isso, saiu porta
afora, sem pagar a conta. De regra, Tião lasca no cangote dos caloteiros um
golpe preciso com o porrete que guarda atrás do balcão, mas, nesse dia, diante
da febre criativa de Terto Mirandinha, ficou paralisado:
não quis abortar o nascimento de alguma idéia genial, capaz de revolucionar a
Vila e o mundo. Resolveu esperar – se a coisa não prosperasse, acertaria o
lombo do vigarista em outra oportunidade.
Pois não esperou muito.
Três dias depois, a Vila amanheceu forrada com cartazes e inundada em panfletos.
Laurinho Telefone, um erudito, leu o texto dos panfletos para o cego Tião.
Diziam que o Doutor Terto Mirandinha,
sexólogo e consultor matrimonial, acabara de se instalar na Vila, tendo
recém-concluído pós-graduação na Universidade de Paris, Texas, com o afamado PHD Livestão Uílian.
Prometia terapia de casais, cura de frigidez feminina e solução de problemas sexuais
na cama e em outros móveis disponíveis pela casa. Sua terapia incluía algo plagiado
pela brasileira que agiu na Espanha: a paciente, lá pela segunda semana de
tratamento, deveria passar algumas noites na clínica de Terto
Mirandinha, sob cuidados intensivos, sessões de hipnose e de percursos
corporais com massagens e defumações. Tiro e queda, garantia.
Na Espanha, a brasileira
acabou presa. Terto Mirandinha, aqui, segue com sua
clínica a todo vapor. Talvez porque, ao contrário de sua colega em Mérida, ele
devolve as esposas aos maridos na data aprazada e estes, ao contrário dos
consulentes espanhóis, sentindo os resultados das noites de terapia no
comportamento sexual da mulher, ficam eufóricos, o que garante a Terto Mirandinha o retorno das clientes para reconsulta, conduzidas por maridos agradecidos.
Como se vê, tudo exige
tino e certo talento nesta vida. O de Terto
Mirandinha é agradar ao cliente que, além de ter razão, deve ficar satisfeito.
É verdade que Terto não voltou ao boteco de Tião para pagar a pendura. Hoje
freqüenta ambientes mais refinados, dividido entre esposas carentes e palestras
que dá, sendo um homem de sucesso, no chamado mundo corporativo, onde
arregimenta clientela e é festejado por maridos cheios de gratidão.
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