Tão Brasil!
Roberto Gomes
Os leitores me
desculpem, fui vencido. Vou escrever alguma coisa sobre a calamitosa
participação do Brasil na Copa. Não queria, por ser meio óbvio e porque os
meios de comunicação estão entupidos com matérias a respeito. Mas não resisti.
Desculpem-me.
O Brasil, ao
contrário da Alemanha e da Argentina, que foram desclassificadas jogando tudo
que podiam e sabiam, foi derrotado pela França como se não passasse – e não
passava – de um bando de desfrutáveis reunidos para uma pelada entre casados e
solteiros.
Na verdade, nem
isto. Nas peladas de final de semana há empenho, luta, sobram botinadas. A
rapaziada do Parreira perdeu com a cara limpa de
sempre, como se nada estivesse acontecendo. Afinal, os contratos publicitários
continuam, as loiras, os carrões, as pulseiras e as correntes de ouro com que
se empetecam continuam cintilando.
O pior é que os
acontecimentos esportivos revelam com transparência o que se passa no país. No
caso desta desclassificação, a forma cínica e frouxa com que o time deixou a
competição revela o que se tornou o Brasil após o reinado de oito anos do nunca
suficientemente esquecido FHC – reinado feito de soberba, arrogância, distância
com o populacho nativo –, mais o mandato em curso do Inácio,
que colocou o país nos limites do ridículo, com desfiles de corrupção,
ausência de qualquer projeto político que não seja o apego mecânico ao poder
pelo poder. Enfim, vivemos nestes últimos anos a soberania do cinismo e do
salve-se quem puder.
Não foi diferente
a seleção. O espetáculo mais revelador aconteceu na entrevista de Parreira e
Zagalo, quando este último, um Forest Gump
tupiniquim, reagiu à ameaça de ser defenestrado do cargo. A seu lado, Parreira
não pediu demissão com dignidade, como fez o técnico da Argentina, com muito
menos culpa no cartório mas com uma dose maior de vergonha na cara.
Este apego ao
poder, ao cargo, às sinecuras, aos holofotes, custe o que custar, doa a quem
doer, o sucesso pelo sucesso, eis algo diante do que Mário de Andrade usaria
sua fórmula notável: “Tão Brasil!”
Esta atitude
revela mais sobre o estado atual do país do que quilos de ensaios
sapientíssimos gerados pelas universidades. Observando com cuidado, vemos que
jogadores e treinador fizeram aquilo que faz a sociedade brasileira nesta
nefasta era que devemos ao Fernando e ao Inácio. Nas livrarias, nos jornais,
nas rádios, nas palestras corporativas, nos papos dos colunáveis, o que vemos é
o endeusamento do sucesso pelo sucesso, a exaltação de um individualismo feroz.
Foi o que se viu na
seleção. Individualmente, o culto ao sucesso: um bateu o recorde de gols do
Pelé (sem chegar aos pés do Pelé, convenhamos), outros bateram o recorde de
partidas, de participação em copas, de jogos, de vitórias, de convocações etc.
A cada recorde, uma entrevista na televisão.
Após a derrota,
jogadores e comissão técnica deram um espetáculo constrangedor, com traços de
pura alienação – não no sentido marxista, no sentido psiquiátrico mesmo.
Derrota? Esta é uma geração vencedora! Não ganhamos porque os franceses jogaram
bem demais! Não é pitoresco? Esperavam que os franceses jogassem mal para nós
ganharmos?
Mais
uma vez, não é diferente do que se passa no país.
FHC
faz de conta que foi, no governo, de uma pureza ética absoluta. Nada de compra
de votos para a reeleição, nada de catastrófico nas negociatas com as estatais.
Já o Inácio, que não sabe de nada, também não tem nada a ver com os desastres
nacionais, seja a corrupção, o uso da máquina estatal em proveito próprio,
negociatas familiares etc. Ele tapa buracos. O outro fazia biquinhos de
intelectual francês. Ambos cultivam uma esperteza malandra, um inspirando-se na
elite paulista e, o outro, escolado nas rodadas de sinuca nos botecos do ABC.
Dois individualistas vorazes.
Enfim,
seus governichos se parecem: os dois perderam para a França. FHC, naquele
momento, se escondeu no palácio. Lula, agora, lembra a mesma atitude acovardada
que teve quando o Evo Morales mandou-o às favas: colocou o rabo entre as pernas
e foi cantar noutra freguesia, logo ele, que tirava fotos assistindo aos jogos
pela televisão.
A
um pobre cronista com a mente cansada, como diria o Drummond, de tanto mentar, só resta o registro do desastre que é,
infelizmente, muito maior do que perder um jogo de futebol.
Tão
Brasil!
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br