Sua Majestade Presidencial

 

 

Roberto Gomes

 

Entre as manias que eu tenho, como dizia Dolores Duran, uma é gostar de livros escritos por estrangeiros narrando viagens ao Brasil. Não me refiro às obras de brasilianistas, não raro acadêmicos chatos. Gosto é dos livros que guardam aquele tom de bisbilhotice, de observação quase fofoqueira, de curiosidade aguçada pelo fato de se estar em terra estrangeira na qual tudo parece novo em folha. Estes viajantes viram pelo avesso, com uma facilidade que nos falta, características psicológicas, culturais e políticas do país munidos de um olhar oblíquo, muito crítico e não raro apaixonado, sobre este estranho objeto: o estrangeiro, o outro. Nós, no caso.

O livro “Sua Majestade o Presidente do Brasil”, escrito por um inglês nada fleumático, Ernest Hambloch, foi publicado na década de 1930. Há hoje uma edição brasileira pela editora do Senado Federal, na Coleção O Brasil visto por estrangeiros, uma das poucas iniciativas louváveis dos senhores senadores.

Hambloch foi membro do Foreign Office e cônsul inglês no Brasil, onde morou cerca de vinte anos, trabalhando na Câmara Britânica do Comércio, no Rio. Saiu expulso, ameaçado por uma campanha que o acusava de “denegrir a imagem do país”. Os nacionalistas de plantão, bobos e oportunistas, viam nele uma víbora a ser pisoteada.

No pouco espaço desta crônica, deixo de lado suas análises das finanças públicas brasileiras. São páginas que divertiriam economistas, se economistas se divertem com alguma coisa.

Focalizo apenas a tese fundamental de Hambloch. A seu ver, são equivocadas as análises que colocam a questão econômica como núcleo teórico para explicar o que se passa no Brasil. Não são as causas primárias, diz ele, e nada explicam. A seu ver, “as origens dos males do Brasil devem ser buscadas nos defeitos de seu regime político”.

E lá vai o dedo na ferida: donos de conhecimento livresco, os brasileiros são incapazes de construir uma ponte mental para aplicação de suas “idéias” aos problemas nacionais. De um modo geral, ocupam-se em discutir figuras e tramóias de políticos e não política propriamente. Eis porque, diz ele, nenhum líder político brasileiro representa qualquer credo político. “Os brasileiros esqueceram-se de como pensar politicamente. Jamais lhes ocorreu formar partidos para advogar idéias”. Oscilam, oportunistas, em torno daquilo que é mais conveniente no momento, aderem a antigos inimigos ou vivem de permutas de interesses políticos pessoais. Daí a conclusão notável: “A política no Brasil nada tem a ver com questões políticas.”

É neste caldo que foi gerada a figura do Majestoso Presidente, criatura sem convicções, que resulta de um despotismo mascarado de democracia. “O supremo Poder Executivo está nas mãos de um homem – o presidente – ao qual, e a ninguém mais, seus ministros são responsáveis. O próprio presidente não é responsável perante qualquer pessoa nesta terra durante seu período de presidência, e ninguém ainda inventou um meio prático de fazê-lo responsável depois!” Daí resultam governos autocráticos e o apego popular à imagem de um líder salvador, de um “homem forte”. “Uma ditadura em estado crônico, a irresponsabilidade geral, consolidada e sistemática do Poder Executivo.” Segundo Hambloch, estes líderes, embora populares, desprezam o povo, que vêem como mera clientela. E nota, quando da campanha eleitoral: “Os programas presidenciais de ambos os candidatos são idênticos. (....) Não há a mais leve suspeita de conflito de idéias políticas. A única idéia política é conseguir o poder.”

Hambloch não alimenta ilusões quanto ao parlamentarismo no Brasil. “Os brasileiros, diz ele, admiram os métodos parlamentares ingleses tão sinceramente quanto a teoria da relatividade de Einstein, sendo o grau de compreensão o mesmo em cada um dos casos.”

E, como conclusão de sua análise desta majestade presidencial, escreve: “Os primeiros frutos da autocracia são corruptos e geram a corrupção.”

A seguinte passagem do livro vale como um tratado sobre as terras tupiniquins: “Os princípios e sistemas democráticos não dependem, como ainda pensa a maioria dos idealistas latino-americanos, de cartas constitucionais, mas de convicções. A fé vale mais do que o fato”. Ai de nós, a quem faltam justamente convicções – motivo pelo qual, aliás, a todo momento criamos novas e inúteis leis nestas terras brasileiras.

Enfim, leiam o livro e compartilhem de minha certeza: embora publicado na década de 1930, foi escrito em 2008. Ou em 1998. Ou em 1964. Ou 1990. Enfim, pouco importa, quem ficou no mesmo lugar foi o país.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br