Sobre o anjo da guarda

Roberto Gomes

 

Cético, com o tempo ele acabou ficando pessimista. Pessimista, não. Odiava a palavra pessimista. Dava azar. Era um otimista, embora cauteloso. Um otimista não ingênuo, apenas isso.

Mas o seu saldo, digamos, era bom e ele acabou concluindo ser um sujeito de sorte. Nenhum assalto em vários anos, nenhum arranhão no carro.

Foi quando passou a acreditar em Anjo da Guarda. Logo ele, cético, sem religião, sem crenças.

Como seria seu Anjo da Guarda? No livrinho de religião do colégio o anjo da guarda era alto, atlético, vestido de branco e tinha asas. As asas eram enormes. O olhar era doce e protetor. Não convencia, pensou o homem. Um anjo no século XXI não pode ser tão tranquilo, tão limpinho e de olhos azuis. Um anjo, nos dias que correm, seria meio estropiado. Asa caída, coberta de fuligem, a roupa escura, talvez estrábico. E nada de sandálias  – seu anjo usaria tênis. Velho.

Mas era um anjo e o protegia. Por isso resolveu fazer uma viagem de avião. Tendo a seu lado um anjo, criatura especialista em voos, era hora de acabar com o medo de voar. Três dias depois estava socado numa poltrona estreita, ao lado de um homem gordo e sorridente que, sem que nada lhe fosse perguntado, explicou que aquele seria o seu voo de número duzentos. O homem sorriu, feliz com seu recorde, e ele se assustou. Imaginou a notícia nos jornais do dia seguinte: “justo quando completava duzentos voos aquele homem foi surpreendido...” Não. Nada disso. Nada aconteceria. O avião estava apenas balançando. É normal. Olhou para o gordo, que sorriu e disse: não se assuste, é assim mesmo.

Onde estaria seu anjo? O piloto mandou que apertassem o cinto e a aeromoça veio pelo corredor espalhando sorrisos falsos. Iam atravessar uma tempestade, disse o piloto, só três minutos de turbulência. Mantivessem a calma. Três minutos. O céu escureceu. Raios. O gordo a seu lado comentou que aquilo estava indo longe demais. E ele, desastrado, disse:

- Tenho um anjo da guarda comigo, não se preocupe.

O gordo o olhou perplexo. O avião mergulhou na noite mais sinistra. O gordo pulou no seu braço:

- E o seu anjo? Como é o nome dele?

- Não sei, respondeu.

- Mas ele é seu anjo da guarda e você não sabe nem o nome dele?!

Jamais pensara nisso.

- Francisco, arriscou.

O gordo o fulminou:

- Francisco?! Isso lá é nome de anjo! Isso é nome de santo!

- Que posso fazer? É Francisco. Chico.

- Chico?! Você é maluco! – o avião pareceu escorregar ladeira abaixo, o gordo gritou pela mãe e o homem, que era cético, olhou o relógio e conferiu que já haviam passado os três minutos previstos pelo piloto. Ergueu os braços e esbravejou, também em pânico:

- Escuta aqui, ô! Agora, chega! Coloca esse voo em ordem!

Foi como se as nuvens fossem sugadas para o espaço sideral, levando com elas os raios, os trovões e as saliências nas quais o avião resvalava.

Fascinado, o gordo olhou para ele e perguntou:

- Como conseguiu?

- Consegui...?

- Nos salvar! Deter a queda do avião.

- Não fui eu. – apontou o alto-falante e disse: Foi ele.

- Ele quem?

Sentiu que não poderia contrariar o gordo. Admitiu:

- O anjo.

- Como é mesmo o nome dele? perguntou o gordo.

- Chico.

O gordo o abraçou e lhe deu um beijo na bochecha:

- Você é um anjo!