Roubando livros

 

 

Roberto Gomes

 

No amor aos livros há muitos exageros. O maior de todos terá sido o que Michel de Montaigne que, ao ser perguntado o que faria se tivesse que decidir entre queimar seus livros ou seus filhos, respondeu, dizem que sem hesitar, que queimaria os filhos.

Mas o capítulo das manias relacionadas aos livros tem um ponto alto: o desejo de roubá-los. Roubar livros, como sabem os livreiros, é um esporte que muitos praticam com raro deleite. Entre os tipos de ladrão de livros encontramos, em primeiro lugar, aqueles que não precisariam roubar. São sujeitos inteligentes, cultos, com bons empregos e conversa erudita. Poderiam comprar. Poderiam? Não. Querem tantos livros que mesmo os seus salários não bastam. Por outro lado, comprados, parece que lhes falta um prazer adicional, um gosto de fruto proibido ou uma gota de rebeldia diante das injustiças sociais. Como se sabe, as justificativas deste tipo de ladrão são refinadas.

Outros roubam por necessidade, mas creio que são minoria. Jovens estudantes, antigos funcionários públicos, professores. Conheci um escritor paulista que tinha ares rebeldes e marginais, além do aspecto doentio e furioso; roubava livros como se aquilo fizesse parte de uma revolução social.

Anatole France, por exemplo, não tinha necessidade de roubar livros. Levava uma vida boa, fácil, numa residência de boa qualidade. Vivia rodeado de livros e alardeava que jamais os emprestava. Não era um princípio. Ele sabia do que estava falando: a maior parte de seus livros ele havia pedido emprestado e jamais devolvera. Era o tal prazer adicional que acrescentava à leitura.

Pois, para consolo destes pecadores, lembro que os ladrões de livros têm, ali por volta de 1630, um companheiro ilustríssimo. Este amante de livros, um jovem sacerdote foi pego com a boca na botija tentando surrupiar um exemplar de A História do Concílio de Trento durante uma visita ao ateliê de um conhecido pintor parisiense. Tal sacerdote mais tarde se tornaria conhecido como Papa Inocêncio X.

Como se vê, o amor aos livros não conhece limites.

Pois eu participei, involuntariamente, posso jurar, de um roubo de livros. Lá estávamos numa livraria, ali por volta de 1975, em São Paulo. Eu, sem dinheiro, só bisbilhotava. Meu amigo, cujo nome não revelo nem sob tortura, pois é hoje professor universitário, ativista político, teórico de esquerda, homem de partido e de altas esferas, percorria as estantes lá no fundo da livraria. Nossas mulheres, junto à porta da livraria,  se perdiam em discussões – que temos aqueles! – a respeito de Rosa de Luxemburgo.

Pois bem. Lá pelas tantas, esse meu amigo me chama a um canto e diz, apontando:

- Dê uma olhada naquela estante.

Fui até a estante e não vi nada que me chamasse a atenção. Ele insistiu:

- Bem aí, fique aí. Na prateleira mais alta. Olhe bem.

Não entendi nada, mas percorri com os olhos as lombadas da prateleira mais alta. Gastei nisso um bom tempo e, quando ia perguntar a ele o que havia ali de tão interessante, meu amigo já estava a meu lado e me pegava pelo braço, dizendo:

- Vamos indo.

Passamos pelo dono da livraria, um gordote que fumava um charuto, e saímos, arrastando nossas mulheres, que seguiram rua afora discutindo Rosa de Luxemburgo.

Só no final da quadra entendi o ocorrido. Ele me plantara em frente àquela prateleira para impedir que o gordote do charuto o visse colocando um livro debaixo do paletó. E me exibiu um grosso volume encadernado, edição espanhola. Tratava-se de um estudo sobre o marxismo.

Levei um susto, ele riu do meu susto, disse que aperfeiçoava aquela técnica há anos, não havia perigo.

No dia seguinte, me procurou indignado. O tal livro era uma análise esdrúxula de Marx, argumentava irado, que não distinguia o jovem Marx do velho Marx, além de pecar contra a dialética etc. etc. E, diante do meu espanto, me disse:

- Vou lá falar com aquele gordinho.

Apresentou-se ao livreiro dizendo que comprara o livro no dia anterior e listou as razões filosóficas que tinha contra a visão reacionária do marxismo expressa naquela obra. Por isso desejava trocar o livro, que comprara por engano.

Aterrado diante de tanta sabedoria filosófica, o gordinho aceitou a troca do grosso volume encadernado – sendo livreiro, acho que pensou que estava levando alguma vantagem – por duas brochuras modestas de Rosa de Luxemburgo.

 

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