Romeu e Julieta reload
Roberto
Gomes
Maicon Sulivan da Silva,
morador do bairro Cachimba, acordou às cinco da manhã. Mal teve tempo de se
vestir, apanhou a mochila que sua mãe preparara e disparou porta afora.
Do outro lado da cidade,
no bairro de Santa Cândida, Mary Suélem de Souza, entrava
na camionete do partido. Sentou-se entre
um gordo que comia bolacha e uma velhinha que ressonava.
Maicon Sulivan e Mary Suélem tinham
algo em comum: iam enfrentar, em alguma esquina da cidade, o barulho dos
automóveis, o fedor dos canos de escape, segurando bandeira de candidatos. Tudo
igual. Ou nem tudo: os candidatos eram adversários.
Maicon Sulivan foi deixado na
esquina da XV com a Mariano Torres. Andou três quadras
até a Comendador de Macedo, onde era seu posto. Mary Suélem,
como é próprio das mulheres, já estava lá, agitando a bandeira do adversário
com um entusiasmo que Maicon Sulivan
considerou provocação. Aquela fulana não fosse incomodá-lo no trabalho, pensou.
Ele largou a mochila junto
ao canteiro, onde já estava uma velha pasta de estudante de cursinho. Ela
ajeitou com o pé a pasta, não querendo mistura com aquele adversário de partido.
E lá ficaram agitando bandeiras.
Fora isto, não acontecia nada. Ou muito pouco. O motorista de um furgão gritou
um palavrão quando Maicon Sulivan
cutucou o teto do seu carro com a
bandeira. E Mary Suélem foi chamada de gostosa por um
motoqueiro.
Ao ouvir aquele grito de “gostosa” perdido no barulho da avenida, Maicon
Sulivan deu afinal
uma geral na vizinha de bandeira. Era cheia de curvas e estava enfiada dentro
de um jeans dois números abaixo. Empolgado, agitou a bandeira com um vigor
renovado.
Mary Suélem,
sendo mulher, já havia conferido tudo a respeito do sujeito. A camisa estampada
estava amarrotada, o paletó não combinava com a camisa. Os cabelos não haviam
visto pente nem água naquela manhã.
E foi assim que os dois
começaram a se apaixonar. Ela gostou dos olhos grandes e negros e do risinho
maroto que ele lhe dirigiu entre uma bandeirada e outra. Ele achou que aquele jeans
embalava um corpo cheio de promessas.
Após este primeiro choque
amoroso, os dois, apesar dos carros e dos fiscais dos partidos, deram um jeito
de trocar algumas palavras. Poucas, mas foi o que bastou.
- Cansada?
- Nem te conto!
- Tô
com um calo na mão.
- Ah, me doem as costas.
As costas das mulheres são
deliciosas, pensou Maicon Sulivan.
Enquanto isto, Mary Suélem apostou: está me
paquerando, o bandido.
Daí em diante, manter as
bandeiras erguidas e agitá-las se tornou um tormento menor. Difícil era seguir conversando
plantados naquele canteiro entre as pistas e o barulho dos carros. Lá pelas
tantas, Maicon Sulivan atreveu-se:
- Quer um sanduíche?
Ela topou:
- Quero.
Apoiados nas bandeiras,
comeram o sanduíche que a mãe de Maicon Sulivan havia
colocado na mochila. Queijo e mortadela. Enquanto ele balançava as duas
bandeiras, ela mordia o sanduíche. Depois, inverteram a operação. Enquanto
mastigavam, ela contou que era solteira, sim, mas tinha dois filhos, um de dois
anos, outro de seis meses. Paulinho e Henrique. No momento morava com os pais,
mas já morara fora de casa. Agora os filhos não permitiam. E ele contou que era
separado, a mulher se mandara com um motorista de
caminhão. Um sujeito vesgo, acrescentou, sem saber o motivo.
Terminado o sanduíche, ele
acendeu um cigarro e ela ficou contemplando aqueles olhos negros e grandes
filtrados pela fumaça. Nem deram pela chegada dos fiscais dos partidos:
- Que é isto?! De mãos
dadas?! gritou o fiscal azul.
- E olho no olho?! escandalizou-se
o fiscal vermelho.
Os dois tornaram a agitar
as bandeiras, mas não adiantou. Maicon Sulivan foi
transferido para a avenida Iguaçu, esquina com a João Negrão,
e Mary Suélem foi parar no Alto da XV. Mas já haviam
trocado números de celulares, esta única propriedade democrática dos dias
atuais, e, à noite, encontraram-se na Praça Tiradentes. Após concordarem que “nunca
se sabe o que estes caras vão fazer”, decidiram votar em branco, evitando
qualquer ameaça ao amor que nascia.
E, assim, ao menos no dia
das eleições, viveram felizes para sempre.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br