QUESTÕES PATAFÍSICAS

Roberto Gomes

 

Todos vimos, nos jornais e na televisão, uns brutamontes dando guascadas e chutes e murros em passageiros de um trem no Rio de Janeiro. Cena deprimente, mas parece que já não estranhamos ver seres humanos sendo tratados com desrespeito por sujeitos que, munidos de um crachá e de um apito, se julgam “otoridades” acima de qualquer lei. Fico pensando: onde será que eles aprenderam que autoridades estão acima de qualquer lei, não é mesmo?

Esta truculência me lembrou uma história atribuída a um político brasileiro de um tempo antigo – um político malandro, talvez sábio. Trata-se de Benedito Valadares. Foi governador de Minas Gerais de 1935 a 1945.

Ele presidia uma reunião de emergência convocada para tratar de uma greve na Rede Mineira de Viação. Os grevistas reclamavam salários atrasados há meses. Auxiliares do governador descreviam o número de grevistas, o volume da encrenca e o perigo daquele episódio se tornar estopim de algo de grandes proporções. Benedito escutava. Um dos auxiliares, Abgar Renault – Secretário da Educação e poeta, vejam – sugeriu enviar um trem com um pelotão da Polícia Militar para acabar com a greve. Bastava que o governador autorizasse.

Benedito quieto. Só olhando.

Abgar insistiu:

- Mandamos um trem levando a tropa, governador?

E o Benedito:

- Que tal a gente mandar o trem pagador?

Pois foi o que me veio à cabeça diante desta brutalidade ocorrida no Rio de Janeiro. Gente enlatada, sendo cuspida pelas portas dos trens. Que tal colocar mais vagões? Que tal mandar outra composição?

Claro, não sou governador de coisa alguma e não tenho poder algum. Talvez por isso me dedique a soluções óbvias. Pelo que parece, os poderosos funcionam segundo outros parâmetros. Que tal pensar em soluções simples ao invés de ver na questão social um caso de polícia? Que tal convocar o tal diretor da administradora da ferrovia (aliás, muito topetudo o tipo) para dar explicações?

Vejam os leitores como a gente, fora do poder, se torna meio pateta, propondo o óbvio. Ocorre que o óbvio, estou convencido, é o grande trunfo dos patetas e dos santos. Dizem que São Francisco, ao ouvir Deus lhe pedindo para construir Sua igreja, não teve dúvidas: tomou a frase ao pé da letra e começou a catar as pedras das redondezas, colocando-as umas sobre as outras, sem mais perguntas. Era um homem prático e digno do óbvio. Se era preciso construir, precisava de pedras para erguer a igreja. Se lidasse com grevistas com atraso nos salários, mandaria o trem pagador. Havendo gente enlatada num no trem, mandaria mais vagões. Faria o óbvio.

Mas os poderosos tupiniquins jamais fazem o óbvio. Primeiro, deixam que os problemas se transformem em catástrofe – sejam escolas, hospitais, estradas, trens, todos aos pedaços. Então, escandalizados, pedem verbas, providências, apresentam projetos. Ou deixam a patifaria correr solta até estourar um escândalo – então juram providências, medidas radicais, inquéritos.

Já que esta crônica está ficando um tanto teológica, me ocorre citar G.K.Chersterton, escritor inglês, autor de um livro delicioso chamado O homem que foi quinta-feira. Lá pelas tantas, alguém assinala: Deus se esconde no óbvio.

Não apenas Deus, acrescento eu, que não sou santo, mas um simples pateta sem qualquer poder. O que me leva a acreditar que, com um mínimo de inteligência, de sensibilidade e de generosidade, 90% dos problemas nacionais seriam resolvidos. Sem novas leis, grandes verbas ou discursos em palanque. No máximo, como exigia Capristano de Abreu em texto famoso, com um pouco de vergonha na cara.

 

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br