Quem será o Ninguém?

Roberto Gomes
O Brasil,
segundo Tom Jobim, é um país de cabeça para baixo – supondo que tenha cabeça,
acrescento eu às notas do maestro. E não se trata de novidade. Um pensador
paulista, Luis Washington Vita, há muitos anos
observou que o Brasil não tinha “cabeça filosófica”, lamentando que nossos
filósofos não passavam de filosofantes.
Essa mistura de
um músico e de um pensador me veio à lembrança quando vi na televisão algumas mulheres
cariocas, durante um protesto, reclamando contra a violência que atinge a todos
nós, sobretudo os que estão no lugar errado na hora errada. Foi o caso de um
jovem morto dentro de um ônibus. Esbravejava a tal senhora na direção da
câmera:
- Isso não tem
fim! Agora, matam esse rapaz. Amanhã, quem será?
Depois de uma
pausa dramática, ela trovejou:
- E ninguém faz
nada!
Nos meus pobres
neurônios acendeu uma luzinha e senti que a senhora havia dito aquela palavra –
ninguém – com inicial maiúscula: Ninguém.
Trata-se de uma
entidade, desconfio eu, donde a maiúscula. Ninguém é responsável, por exemplo.
Ninguém sabia de nada. Ninguém toma providências. Ninguém se responsabiliza. Os
assuntos podem ser os mais diversos, como os leitores percebem, e lá
encontramos o Ninguém que ora é omisso, ora é incompetente. E imagino que Ninguém
terá outras características: se veste bem, usa gravata, perfumes, engoma os
cabelos. No caso da saúde, Ninguém resolve a falta de médicos e de vagas nos
hospitais. Na educação, Ninguém investe no ensino e nas condições de trabalho
de nossos fatigados professores. Em política – inicial minúscula, com certeza –
Ninguém sabe de nada e não toma vergonha na cara. Quanto à violência – ou seria
Violência? – se dá o mesmo: Ninguém detém a bandidagem.
Esse Ninguém,
onipresente e onipotente, é o responsável por todos os nossos males. Por isso
ainda ouço a voz estridente daquela mulher a gritar no meio da rua:
- Ninguém se
responsabiliza!
O que significa, como sabemos, que tudo continua na mesma. Foi com
essas imagens e esses sons na cabeça que fui deitar. Mas não consegui dormir.
Fiquei pensando, madrugada adentro, se não seria o
caso de identificarmos afinal esse indivíduo, vulgo Ninguém, exigindo que faça
o que tem que ser feito, admita o que há a admitir, confesse o que deve
confessar.
Lembrei de
algumas imagens fantasiosas de acontecimentos históricos. As revoluções
Francesa e Russa, por exemplo. Mas também movimentos mais recentes. Gandhi,
Martin Luther King, a campanha das diretas, a derrubada daquele presidente
vindo de Alagoas, e até mesmo o nosso épico estadual, o levante dos posseiros no
sudoeste do Paraná, em 1957. Eu pensava: como será que essas populações em
rebeldia conseguiram driblar o Ninguém?
Insone, fui ao
note-book e acessei o Google, que nos acode nas horas mortas. Procurei descobrir
se na França ou na Rússia alguém ficou esbravejando contra o Ninguém. Por
exemplo: “Ninguém nos dá croissant!” gritava o povo,
revoltado com a frase de Maria Antonieta. Ou: “Ninguém derruba esse cara!” teria
exclamado um careca descendo de um trem, em 1917. “Ninguém nos dá a igualdade!”,
reclamariam Gandhi e Luther King. Havia algo no Google? Voltei para a cama exausto; nada encontrei.
Assim, talvez
dormindo, me ocorreu que um dos males do Brasil é essa coisa de acusar o
Ninguém. Vai ver, ele não passa de um fantasma de nossa incapacidade em nos
livrarmos de opressores, de políticos corruptos, de empresários corruptores, de
administradores que só pensam no próximo – não no próximo do qual fala o
mandamento bíblico, mas no próximo mandato.
Foi com esses
dilemas que gastei minha insônia e alimentei meus pesadelos. Entre uma e outra
imagem delirante, eu via Tom Jobim de chapéu panamá a dar cambalhotas em cima
de um piano. Boquiaberto, eu pensava: como é que o chapéu não cai da cabeça
dele?
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