Que futuro terá o boteco do cego Tião?

 

Roberto Gomes

 

O boteco aqui da Vila, capitaneado pelo casmurro cego Tião, está em crise. Depois da lei seca, o movimento caiu e os bêbados passaram a tomar capilé com groselha. Ou tomam uma dose de pinga ao chegar e passam as horas seguintes a mastigar algum salgadinho para enganar o bafômetro. Um tédio.

E não é só. Laurinho Telefone, bebedor emérito, vendeu o carro e resolveu investir o dinheiro arrecadado na formação de uma robusta adega caseira. Depois da repartição – onde dorme e lê jornais – vai para casa ver DVDs e beber o estoque.

Mano Macieira, sempre tão falante, anda abatido, macambúzio, sorumbático. À custa de tanta abstinência, talvez enverede para seitas evangélicas, considerado seu gosto por soluções messiânicas, com ou sem tinturas marxistas. Fala pouco e cita textos sagrados de várias origens, embora misture Omar Khayyam com o Cântico dos Cânticos. Quando declama: “Nosso tesouro? O vinho. / O palácio? A taverna.” – é possível ver uma lágrima escorrendo em seu rosto.

- Restam-nos apenas as palavras, murmura.

E o cego Tião passa os dias pensando em como pagar as contas no final do mês.

Mas, além do faturamento em baixa, surgiu outro problema. Carlão Borracheiro, que antes chegava pilotando a Vemaguete 67, agora chega a pé, bebe como sempre e sai pela rua cometendo desatinos, gritando que roubaram a Vemaguete - onde está meu carrinho? quem foi? sempre estaciono aqui! Depois desta encenação, cai emborcado na primeira valeta.

Como resultado, cego Tião precisou providenciar um sistema de entrega de bêbados a domicílio, estejam a pé ou de carro. O diabo é que Carlão é imenso, forte, gordo, e são necessários três moleques da Vila para carregá-lo até em casa. Ao pagar aos moleques pelo carreto, cego Tião vê seus lucros evaporarem.

- Lá se vai tua mais-valia, debocha Mano Macieira.

O mais exaltado, no entanto, é o causídico da Vila, o ilustre doutor Asclépio Plúmbeo Da Vênia. Sempre rebelde e dramático, ele ameaça, depois da terceira dose –bebe sem preocupações, pois não tem e não sabe dirigir automóvel – entrar com um pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal.

- O Brasil, exclama, é um país proibidor e proibitivo!

E desfia uma lista de bêbados ilustres. Bêbados da política, da literatura, da ciência, da filosofia. A seu ver, sem o que chama “os eflúvios divinos de Bacco”, nem metade das descobertas científicas e da melhor literatura teriam acontecido. E os amores seriam pífios: um copo de vinho torna divina a pessoa amada.

- Passaremos à história como um país de abstêmios sem imaginação!

- É isso mesmo, apóia Carlão Borracheiro.

- Estão nos cercando! – continua Asclépio – Já não se pode fumar em lugar nenhum. Para beber, só se o sujeito vier com um motorista a tiracolo! Qualquer dia...

Foi quando dona Martinica entrou no boteco para comprar fósforos, velas e fitas vermelhas, que usa em despachos vários e de pontaria certeira. Pois ela se intrometeu na conversa, dizendo a Da Vênia que as estatísticas mostram que os acidentes diminuíram. Ele quase perde as estribeiras:

- E quem acredita em estatísticas no Brasil?!

Dona Martinica não se deu por achada. Provocou:

- Então o senhor acha que é direito dirigir bêbado?

Da Vênia não disse o que lhe passou pela cabeça, pois é homem educado. Assumiu um ar professoral, macio, e com voz quase sacerdotal, explicou:

- Dona Martinica, o Brasil é um país proibidor e proibitivo porque é tangido por uma mentalidade juridiqueira e legislativa. O que diminuiu os acidentes foi a repressão policial, que costumava não existir e que logo será afrouxada. Acontece, dona Martinica, que uma lei nunca lhe diz o que fazer, mas o que não fazer. Jamais ensina um fiapo de ética. Jamais nos oferece uma mísera fatia de educação. Se a senhora perguntar a um jurista como ir daqui até sua casa, ele lhe dirá que a senhora não deverá andar cinco quadras à direita nem cruzar a rodovia. No entanto, basta a senhora atravessar a rua, não é mesmo?

Dona Martinica não entendeu. Aliás, ninguém entendeu.

- Estamos perdidos! exclamou Da Vênia, abraçando-se a Laurinho e assumindo  a sua melhor imitação de Humphrey Borgart: estão todos duas doses abaixo!

 

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