Ouviu a vaia ou a vaia não
houve?
Roberto
Gomes

Após a tragédia anunciada
do vôo 3054, não sei se os leitores lembrarão, no domingo, do assunto que tomou
conta do noticiário na abertura do Pan: a vaia que sacudiu o
Maracanã, reconhecido templo da irreverência nacional. Tragédias
anunciadas ocorrem a toda hora no Brasil, o que nos leva a não saber o que
acontecerá amanhã e a esquecer do que aconteceu ontem. Os passageiros do Airbus não sabiam nem mesmo o que ocorreria nos próximos
três segundos.
Nós brasileiros somos
acusados de desmemoriados, o que beneficiaria políticos e empresários sedentos por
verbas públicas. Aqui, havendo escândalo, usa-se o “método Renan de protelação”,
pois, mais dia menos dia, a coisa será esquecida. É bem verdade que para certos
episódios temos memória de elefante, como é o caso da derrota para o Uruguai, na
Copa de 1950, justo no Maracanã, que também é um templo
da memória nacional.
A sonora vaia, em seis portentosas
edições, recebeu dos assessores de Lula explicações
dignas do Conselheiro Acácio. Ao ouvir uma senadora escalada para a tarefa de
esclarecer o incidente, eu, distraído que sou, fiquei pensando: não houve a
vaia que se ouviu ou ela não ouviu a vaia que houve?
Os áulicos que cercam o presidente
sacaram uma explicação paranóica na qual Lula embarcou: tudo que se ouviu, se é
que houve, não passou de uma armação. E a armações não se deve dar ouvidos. Pronto,
tudo explicado.
Como desconfio de paranóias,
fiquei matutando em busca de uma explicação para o seguinte: como seria
possível levar 90 mil pessoas a vaiar a simples menção do nome do presidente
por seis vezes? Para tanto, os brasileiros, além de desmemoriados e bons de
bola, teriam que ser marionetes, o que não é razoável.
Vejamos. Teríamos que
providenciar agentes infiltrados na multidão. 10%? Já seria um pequeno exército
de nove mil bocas. Vá lá, 5%. Seria preciso ensaiar esta gente. Um só maestro
não bastaria. Os chefes de bateria das escolas de samba dominam no máximo uns trezentos ritmistas. Difícil.
Mas deixa passar. A senha seria a palavrinha Lula, é claro. Fácil. Mas como é
que se faz para que outras 85 mil pessoas acompanhem o coro? Nem no Cirque du Soleil se viu tanta coordenação e empatia. Desisto.
Acho que há uma explicação
mais simples.
Em primeiro lugar seria
preciso alguém de muito poder sobre a multidão. Um chefe. Eleito com vastas
expectativas e mais de 50 milhões de votos. Depois, seria necessário que ele cometesse
alguns desatinos. Tão logo empossado, deixaria de defender o que sempre defendera:
descontar INSS dos aposentados, por exemplo. Não esqueçamos: o Rio é uma cidade
cheia de aposentados. Depois, quando explodisse algum escândalo, seria preciso
que este alto mandatário, apesar das evidências, que colocavam o centro do furacão
na sala ao lado da sua, se saísse com algo assim: eu não sabia. Só isso.
Sabemos que o povo é meio
bobo, mas também sabemos que o povo não gosta de ser feito de bobo, coisa que políticos
precisam levar a sério. Depois, fosse pelo transporte de dólares na cueca ou por
propinas recebidas por auxiliar diante de uma câmera, o chefe continuaria a
ostentar uma vistosa auto-suficiência, movida a pronunciamentos feitos aos berros.
Contra tudo e todos. E, quando um companheiro qualquer fosse pego com a boca na
botija, deveria dizer que colocaria a mão no fogo por ele. Ou que jurava pela
retidão de seu ministro da Fazenda. Ou que seu ministro da Casa Civil era um homem honrado, um amigo, e ele não abandonava
os amigos etc. etc. Depois, defenderia certo senador, dono de bois muito
lucrativos, até os limites da farsa mais desbragada. Exigiria provas, quando em
política evidências bastam: a mulher de César não deve apenas ser honesta, mas parecer
honesta.
Pronto. O plano exigia
alguma memória, mas o povo brasileiro, presente ao estádio,
mostrou ter memória de elefante. Bastava agora o chefe entrar no Maracanã lotado e aguardar. Ele seria o alvo e o gatilho.
Quando citado seu nome, a vaia explodiria impiedosa, pois neste monumento à
irreverência se vaia até minuto de silêncio, conforme o sábio Nelson Rodrigues.
Fiquemos, pois, com a
conclusão cartesiana: Lula foi o mentor, o organizador e o deflagrador da vaia.
Didaticamente, como em antigos manuais de alfabetização, deveríamos dizer a ele
e a seus assessores:
- O vovô viu a uva e o Lula ouviu a vaia.
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