Ouça a chuva e desligue o celular

 

 

Roberto Gomes

 

Não digo que odeie guarda-chuvas. Não chego a tanto. Minha capacidade de odiar invenções humanas se satisfaz com o telefone, sobretudo o celular. A este pequeno inseto infame, a esta campainha anã anunciando o final do recreio, dedico meu desprezo. Dizem que os celulares já são mais de 100 milhões no Brasil. Por mim, poderiam ser só um ou dois – daria a dois desafetos só para vê-los perder tempo e conversa.

Faria o que fez meu amigo André Abramczuk. Há uns vinte anos e tantos anos, estávamos numa praia, sendo que comigo foi de arrasto um crítico literário norte-americano em viagem pelo Brasil e do qual eu não conseguia me livrar. Ele viajava a pretexto de fazer pesquisas sobre alguns autores, sendo que eu era uma das vítimas. Desconfio que viajava com a finalidade de chatear quem encontrasse pelo caminho. Ali estávamos a suportar o chato quando o André, que, além de ter um metro e noventa e oito de altura, é dotado de senso de humor muito especial, disse ao americano:

- Você precisa conhecer um vizinho meu. Vai gostar dele.

E nos conduziu à casa do vizinho, que era, para meu espanto, uma espécie de clone germânico do americano. Mesma altura, mesma cor de cabelo, olhos azuis, boca infantil.

Mal os dois sentaram nas cadeiras que estavam na varanda da casa, André me pegou pelo braço e murmurou:

- Vamos cair fora.

E, virando-se para os dois:

- Nós vamos fazer uma caipirinha e já voltamos.

O vizinho ergueu um polegar e o americano moveu os lábios cor-de-rosa:

- Caipurrinha, disse ele.

André me obrigou a apressar o passo.

- Não dou cinco minutos, disse ele.

E me explicou:

- São dois chatos! Vão se matar!

Não deu outra. Ficamos observando de longe e logo os dois estavam erguendo a voz, levantando-se e andando pela varanda, cada vez mais vermelhos. Quando a coisa parecia caminhar para o pugilato explícito, André resolveu que era hora de intervir. Voltamos com as caipirinhas e acabamos com o entrevero.

Bom, o leitor estará pensando que isto nada tem a ver com guarda-chuvas e celulares, mas estará, me permito discordar, enganado. Todos são igualmente chatos, tal como vizinhos grosseiros e acadêmicos norte-americanos em viagem, donde a semelhança.

Por isto, hoje eu daria a eles aqueles dois únicos celulares de um mundo ideal e ficaria de longe esperando pelo desastre.

Dias atrás os jornais noticiaram que uma empresa de Massachusetts – tinha que ser de Massachusetts! – inventou um guarda-chuva que avisa a seu proprietário se vai chover e se a chuva será fininha e chata ou daquelas que ameaçam acabar com o mundo.

O tal guarda-chuva, capaz de cálculos atmosféricos complicados, deve ser colocado junto à porta de casa. Se captar sinais de chuva, acende uma luz azul embutida no cabo, que pisca desesperada, avisando ao proprietário.

Não vejo utilidade alguma nesta engenhoca. Chuva é coisa traiçoeira, sempre nos pega desprevenidos, quando não há um mísero guarda-chuva nas redondezas. Uma prova disso é o cinema. Quando chove, o ator chama um táxi e não um guarda-chuva. Táxi sempre tem; guarda-chuva, nunca. Ou seja, se não pudesse chatear, a chuva nem choveria. Não haveria motivo. Nunca vi cair chuva quando há um guarda-chuva disponível – aliás, carregar um guarda-chuva é método seguro para não ser surpreendido pela chuva.

Agora, o caso do celular. É capaz de passar e-mail, de acessar a Internet, de tocar música, mandar torpedos, mas a voz do outro lado nos chega que é uma lástima: ondula, ecoa, foge, treme, picota e, quando dele mais precisamos, nos informa que estamos fora da área. Além disso, como na piada do português, com ele qualquer um pode ser surpreendido no motel.

Enfim, melhor viver sem celular, sem guarda-chuva e sem brasilianistas por perto.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br