Os segredos do óbvio

 

 

Roberto Gomes

 

 

Ao contrário do que parece, o discurso político é óbvio e talvez não careça de  exegese. Quem procura nele segundas intenções capciosas, vai se frustrar. É claro que é preciso ficar atento e aguardar a ocasião propícia para descobrir o que não é dito explicitamente, mas que está, no entanto, perfeitamente dito.

Quando Gilberto Gil deixou o Ministério da Cultura, produziu um destes momentos. Antes, havia ameaçado sair, reclamara de reuniões, de cerimônias cacetes, do prejuízo que os discursos causavam às suas cordas vocais, da falta de tempo para shows, discos e composições. Perfeito. O cargo político estava prejudicando o Gil e, a meu ver, nada acrescentava a ele e à política cultural do Brasil. Fez bem em sair.

Mas, ao sair, Gil declarou, alto e bom som, como é hábito seu, e desta vez sem o estilo barroco e delirante no qual se refugiou durante seu percurso político:

"Agora posso dizer o que quiser; xingar, se eu quiser; dizer que amo, dizer que odeio. Não preciso ser politicamente correto, no sentido da ética pública."

Ao sair, foi claro, claríssimo, mais talvez do que desejava ser. Ao dizer que a partir de então poderia dizer palavrões, xingar, reclamar, expressar o que realmente sentia, ele afirmou que estava, afinal, livre.

Livre para quê? Para dizer a verdade, fica claro.

Mas qual verdade?

O desabafo de Gil me lembrou declarações feitas por FHC e Lula quando assumiram seus primeiros mandatos.

Disse FHC: “Esqueçam o que escrevi”.

Bom, cada um sabe o que escreve e a verdade que coloca em seus livros. No caso de FHC, a obra não é tão admirável quanto ele imagina, mas é curioso que ele, um professor universitário, tenha se sentido obrigado a advertir que seus escritos deveriam ser esquecidos.

Como se supõe que ao escrever os autores colocam no papel as verdades das quais estão convencidos, podemos concluir que a partir da sua posse começa um novo período, qual seja, o da mentira. Ao subir a rampa, a equação da verdade se inverte, é o que podemos entender.

O mesmo ocorreu com Lula – e vale lembrar que o ex-operário e o ex-professor sempre pretenderam ser criaturas muito diferentes entre si. Como não tivesse obra escrita para negar, Lula negou o que “havia dito”: coisas sobre socialismo, sobre esquerdismo, sobre movimentos sociais etc.

O sentido que nos interessa é o mesmo. Ao subir a rampa e receber a faixa presidencial, ambos advertiram: já não poderiam dizer as mesmas coisas, defender as mesmas idéias, posicionar-se da mesma forma, ainda que um e outro tivessem concepções supostamente muito diversas. O ato de assumir o poder, no entanto, lhes impunha uma mesma coisa: precisavam negar o que haviam dito.

Eis o que se pode concluir: para Gil, ao sair, inaugura-se um novo período, o da verdade. Pode agora dizer o que pensa, não se dobrar às conveniências, não esconder o que sente.

Para Lula e FHC, ao assumirem seus cargos, inaugurava-se também um novo período: o da mentira.

Eis como o discurso político, nos oferece uma verdade clara e inquestionável: todos os homens públicos têm do período em que estão no poder uma mesma concepção: é um momento que impõe  a mentira.

Na teoria política isso é coisa velhíssima, quando se diz que as razões de estado exigem a mentira e, no mesmo movimento, garantem o perdão a quem mente. Mente-se porque dizer a verdade aos governados seria inconveniente ou perigoso ou contraproducente para os interesses do Estado. O recurso à mentira – que seria no entanto excepcional, a ser usado para esconder segredos de guerra ou estratégias econômicas delicadas – passa a ser, mesmo em tempos de paz, a moeda corrente, o dia-a-dia. Mente-se a qualquer hora, a qualquer pretexto, em qualquer caso, estejam ou não em questão razões transcendentais de Estado. Mente-se porque é preciso mentir, pois o poder não pode ser exercido sem a mentira.

Eis o que nos dizem as frases emblemáticas destes três homens públicos, sem qualquer necessidade de análises complicadas ou esotéricas: entre a posse e a saída do poder se encontra o período em que a mentira é a verdade. Ou a verdade é a mentira.

 

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