Os herdeiros de Gutenberg

Roberto Gomes

 

Faço parte desses malucos que um dia resolveram se meter a editar livros.

A verdade é que conheci gente da melhor qualidade e aprendi muito editando livros. Entre as coisas que aprendi, a grande afinidade entre gráficos e editores.

No mundo do livro, ao contrário do que muitos imaginam, as divergências e o choque de interesses são enormes, sobretudo entre editores, livreiros e distribuidores. Em vinte e tantos anos de atividade, posso garantir que nunca recebi qualquer apoio de livreiros e distribuidores, que se comportam como atravessadores oportunistas e jamais participam de qualquer risco com relação ao livro. Prova disso é que só compram o livro quando ele já está vendido. E, salvo raríssimas exceções, não lêem nada.

Mas, no pessoal das gráficas, encontrei ajuda sincera e até mesmo amizade.

Era 1981 e estávamos com dois livros para editar. Feitas as contas, os custos ultrapassavam nossos trocados. Até que encontramos uma gráfica, chamada Gráfica do Professor, que ficava em Pinhais. Lá encontramos nosso salvador, o professor Antônio Dias.

Não apenas uma figura humana rara. Era também um professor no que se referia às artes gráficas. Eu conhecia alguma coisa de gráficas, pois passei parte da infância dentro de uma delas. Mas sabia pouco. O professor Dias foi me passando as dicas. Ainda estávamos no tempo da tipografia e os textos eram compostos em linotipos que cuspiam linhas de chumbo fervente em meio a grande barulheira, envolvendo teclados, ganchos, trilhos, fornos e, é claro, o linotipista. Um deles, o simpático Catarina, que trazia no corpo as marcas da profissão: manchas azuis provocadas pela intoxicação por chumbo.

Fizemos vários livros nesta gráfica, explorando ao máximo recursos que hoje nos parecem extremamente limitados. Um dia, sendo novato, perguntei ao professor Dias e ao Catarina quantas linhas colocaríamos por página.

- Quarenta e duas, me responderam, de imediato e em coro.

Achei curiosa aquela resposta em uníssono. Comentei:

- Como a bíblia do Gutenberg.

Eles me olharam espantados e nos sentimos em pleno século XV. Juntamos então minhas bisbilhotices livrescas sobre editoração com a prática centenária que eles dominavam e fizemos os livros. A bom preço. Em parcelas a perder de vista. Com atraso nos pagamentos. Sem o professor Antônio Dias, os primeiros livros jamais seriam editados.

Alguns títulos depois, já na era off-set, vimos os custos dispararem. Tudo era caríssimo. Fomos parar na gráfica Darnol, cujo proprietário, Darlan Dalagnol, a exemplo do professor Dias, nos abriu as portas, nos ensinou a lidar com fotolitos, a diagramar, escolher tipos, economizar em papel e tinta.

Darlan era um tipo meio rabugento, que cultivava um jeito franco e direto, mas nos dava as mesmas facilidades e se dispunha a ensinar, a encontrar soluções técnicas para nossas edições. E os livros podiam ser feitos.

Nesta gráfica, conheci, pilotando uma máquina hoje pré-histórica, a IBMComposer, um sujeito magrela, com cabelo black-power e humor sombrio. O sujeito falava quase nada, mas dedilhava o teclado com uma agilidade notável e uma velocidade de tirar o fôlego. Era o então jogador de basquete Reinaldo César Lima, capaz de digitar textos imensos sem um erro, sem olhar para o teclado e sem desmanchar o mau humor. Ficou menos rabugento – e mais falante – com a idade, ainda bem.

Nos fotolitos, Joãozinho. Fazia malabarismos para conseguir o que queríamos. - Vai dar certo, Joãozinho? – eu perguntava. Ele disparava sempre a mesma resposta:

- Não tem errada.

Não tinha errada.

Anos depois, chegamos ao Jacyr Venturi, da gráfica Unificado. Nos recebeu como se fôssemos velhos amigos. Nesta gráfica nossa editora encontrou, no Jacyr e no chefe da oficina, Nazareno, a disposição e a competência profissional para se descobrir soluções técnicas e econômicas para nossas publicações. Foi nossa melhor fase.

Agradeço a eles pela aventura editorial na qual sobrevivemos por mais de vinte anos. Sem o professor Antônio Dias, sem o Darlan Dalagnol, sem o Jacyr Venturi – e suas equipes – não teríamos editado tanto e com tão boa qualidade. E nem teria sido tão divertido.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br