Oração para internautas indefesos

Roberto Gomes
Vou abatendo, sem abrir, e-mails que querem consertar minha vida, me
vender o impensável, colocar um vírus no meu notebook.
Um aconselha o abandono de dietas sem gorduras. Outro promete acabar
de vez com a calvície. Que tal fazer sexo muito sensual na cama? – me pergunta
o terceiro, num estilo duvidoso. E assim vai: não devo perder as ofertas de
vitaminas com 50% off, e preciso me recadastrar num
banco no qual não tenho conta, além de aderir a um certo
marketing digital. Ah, sim, também me cobram um bom condicionamento físico.
Claro, não faltam duas ofertas de viagra. 40% off.
Ainda bem que hoje não chegou nenhum e-mail falando em penis enlargement
ou em me transformar em um campeão de felicidade. Já é um consolo. Além de
gordo, careca, sem imaginação sensual (seja lá o que isso for) e preparo
físico, incapaz de aproveitar liquidações e em falta com a burocracia bancária
– me sentiria um infeliz sem remissão.
Por isso resolvi oferecer aos meus leitores essa modesta oração para internautas indefesos. É assim:
Livrai-me, Senhor, destas correntes que circulam pela Internet,
destes conferencistas contentes, destes auto-ajudantes de si mesmos, que me
dizem o que fazer, o que não fazer, ralhando comigo
por não ter acumulado fortuna e poder, por não ter encarado minhas crises como
oportunidades, nem me empenhado em ter sucesso. Senhor, não
quero estas glórias e, de todas as glórias, desejo apenas que não me
chateiem. E não acho que o Senhor, com tantos afazeres neste planeta
tumultuado, deva se preocupar com minha conta
bancária, com meus negócios inexistentes, com meus lucros que desconheço.
Não peço dádivas nem o perdão de dívidas. Gostaria apenas de não ser alcançado
por estas mentes sentenciosas, com suas imagens piegas e musiquinhas
frouxas em apresentações do PowerPoint. Sobretudo, livrai-me do politicamente
correto e das lições corporativas, que imaginam que a vida é feita de débitos e
créditos e que o Senhor é uma espécie de gerente de nossos ganhos e perdas.
Também dispenso lições de como enfrentar a vida, venham de
psicólogos, economistas, administradores, conselheiros corporativos, médicos, esses
solucionadores de todas as misérias humanas, que resolvem qualquer conflito com
dois ou três lugares comuns.
Tenho muitas dúvidas e já não sei viver sem elas, Senhor. Que os
conselheiros me deixem em paz. Eles querem colocar a todos em linha reta, como
ironizou o poeta Fernando Pessoa, que não dava conselhos a ninguém.
Sei que tenho defeitos em boa quantidade, uns de pequeno porte,
outros meio grandotes, mas juro que de todas as listas de pecados graves ou
leves que consultei em livros sagrados ou em códigos elaborados pelos homens,
não tenho visto ali muita coisa que eu tenha praticado com freqüência e empenho.
Cometo pecadilhos aqui e ali, muitas vezes por desatenção, outras por afobação,
outras por não pensar no que faço. Sou muito amador nisso de pecados, grandes
ou pequenos, posso garantir.
Prova disso é que, lembrando o que fazem os governantes e os donos do
dinheiro do mundo, fico achando – me perdoe a possível soberba, Senhor – que sou
um santinho.
Então, Senhor, não tendo pecados tão poderosos, não querendo mais
dinheiro do que aquele que meu trabalho produz, estando em paz comigo mesmo, gostaria
de me ver livre destes ensinamentos bobocas.
Portanto, livrai-me dos que querem me vender sexo em prontidão, que
desejam afanar a senha de minha pobre conta bancária, ou me vender seja lá o
que for, seja para engordar ou emagrecer, tornar-me atleta ou místico, careca
ou cabeludo.
Livrai-me, Senhor, destes que fazem campanhas furibundas contra o
único vício que mantenho, os sete cigarros que fumo por
dia. Senhor, eu não mereço o asco que tais criaturas dirigem aos que fumam. Qualquer
dia, dirão ao povo que devemos ser caçados com tacapes, trancafiados em celas
infectas, apontando-nos como portadores da peste – e o Senhor sabe que em seu Santo
Nome alguns já andaram caçando bruxas.
Em todos os casos, Senhor,
seja feita a Vossa vontade. A minha, pelo visto, não
anda com nenhum prestígio.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br