O sol, o circo e o espanto

 

Roberto Gomes

 

 

A chegada de um circo era um acontecimento que causava um abalo cósmico na vida da cidade. Alguém trazia a nova: chegou um circo. E lá íamos nós, não apenas ao circo, mas vê-lo chegar com seus caminhões, camionetes, roupas coloridas e aquelas mulheres bonitas e de coxas reluzentes. Uns sujeitos baixinhos, que depois descobríamos que eram os palhaços, os acrobatas, os equilibristas, preparavam o terreno, levantavam a lona, armavam o circo. Uma camionete saía pela cidade anunciando aos berros que haveria espetáculo.

Depois, se espalhou a triste certeza de que o circo havia morrido. Os circos ficaram cada vez mais pobres e deserdados. Sempre resisti a aceitar isto. Fiquei de olho nos circos que sobreviviam aqui e ali, batia palma quando aparecia um novo circo ou quando, em viagem, encontrava um pequeno circo, roto e sujo, armado à beira da estrada. Ainda havia esperança.

Agora é a vez do Cirque du Soleil. Já tenho meu ingresso no bolso e estudo formas inéditas de aplaudir e assoviar, antecipadamente conquistado.

Por isto fui ler matérias a respeito do Soleil em nossa imprensa. Que decepção. A imprensa sofre de males que parecem incuráveis. Um deles, considerar que só desgraça é notícia.

A segunda distorção está nas matérias sobre o Soleil. Trata-se da mania obsessiva de transformar tudo em números, mesmo aquilo que é inumerável.

Leio as cinco páginas de uma revista semanal e fico sabendo de uma série de coisas absolutamente inúteis.

Tudo são números. O Soleil tem 13 espetáculos em torno no mundo, em 90 cidades, 240 temporadas, que foram vistas por 50 milhões de pessoas. Fatura anualmente 600 milhões de dólares. Já vendeu 240 mil ingressos para as apresentações no Brasil.

Respiro fundo e vou em frente, em busca de algo que satisfaça minha curiosidade pela poesia, pela montagem vertiginosa, pela integração entre movimento e música, pelo humor que sei existir nos espetáculos deste circo.

Nada. A matéria fala em equipamentos poderosos, me diz que são 24 os artistas – de 10 nacionalidades – que  atuam em Mastros chineses. Há 600 roupas no figurino, um dos acrobatas pesa 85 quilos (menos do que Ronaldão, ótimo). Os artistas ganham 5 mil dólares por mês em média. Há comida farta para todos: massa, frango, porco. A matéria não informa quantos quilos ou toneladas.

Além disso, o texto cutuca a fascinação e inveja dos leitores: nos diz que Guy Laliberté, o criador do Soleil, emprega 3.500 pessoas em 40 países e é dono de uma fortuna de 1,4 bilhão de dólares.

Um dilúvio de números. Saio da reportagem sem saber coisas que esperava encontrar nela. Guy Laliberté, por exemplo, além de rico, deve ter idéias muito especiais a respeito do circo, não é verdade? Além disso, o espetáculo apresenta uma certa história, personagens, situações tensas, fascinantes, hilariantes, que nos devolvem um pouco da infância. Ou não? No que este circo é revolucionário com relação a outros? Nada disso é objeto do texto.

O texto fala de números supostamente significativos, neste jornalismo mitigado. Seria o equivalente a alguém que escrevesse sobre os quilos de tinta gastos por Van Gogh, o número de pincéis que Rembrandt usou ao longo da vida, as toneladas de mármore que Miguel Ângelo domou com marretadas. Quem sabe os litros de tinta que Guimarães Rosa empregou para escrever Grande Sertão: Veredas, a quantidade de papel que Poty consumiu com sua obra, o número de metros quadrados de tela que Picasso cobriu com tinta? E Beethoven, quantas cordas de piano estourou para chegar à Nona Sinfonia? Quantas vezes Fred Astaire torceu o tornozelo? E Fellini, quanto queimou em orçamentos malucos ao longo da vida? E Kurosawa, quantos rolos de filme consumidos até a cena ficar no tom e na luz que queria?

Acho que há coisas mais importantes a serem escritas do que esta enxurrada numérica. Até no futebol elas são hoje dominantes e, de resto, igualmente inúteis e ridículas. Ao invés de se dependurar em estatísticas, quem escreve sobre circo deveria se inspirar em outros olhos e critérios. Nos olhos moleques de Mário Quintana, por exemplo. Ou nos belos olhos de Adélia Prado.

Olhos que vêem e sentem, olhos que revelam. Que captam o principal e abandonam o secundário. Que são capazes de encantar tal como o circo, seja o Soleil ou qualquer circo mambembe de beira de estrada, que nos devolvem a infância e aquilo em que Platão via a origem de todo o conhecimento: o espanto.

O grande espanto diante do espetáculo do mundo e do circo.