O jantar do pai primordial

 

 

Roberto Gomes

 

Está em circulação, outra vez, a reeleição de Lula. No momento, o gancho é a doença de Dilma Roussef. Aliás, sendo o Brasil o que é, não duvido que a comoção causada pela doença da ministra faça subir seus índices de popularidade, nessa união de sentimentalismo e bolsa-família. Mas os neo-queremistas estão agindo. Temem a doença de Dilma e apostam tudo na continuidade com Lula.

Caberia perguntar o que Lula pensa disso. Ocorre que Lula, sendo visceralmente oportunista, não pensa nada. Fora declarações improvisadas, ele jamais disse, sem ambiguidade, o que pensa do assunto. Aliás, a ambiguidade faz parte do oportunismo, sempre deixando uma porta aberta por onde sair quando for conveniente.

Sua última tirada a respeito foi se dizer “feliz” com o resultado das pesquisas. Corremos o risco, depois do mensalão, que representou um brutal retrocesso ético para o país, de ter um retrocesso nas frágeis conquistas da democracia brasileira.

Isso significa que, teoricamente – se é possível exigir posição teórica de políticos brasileiros, seja Lula ou outro qualquer – ele nunca adiantou um princípio segundo o qual se possa pensar a questão do terceiro mandato. Nem ele nem seus seguidores. Aliás, antes que me acusem de ser anti-lula ou anti-pt, devo adiantar que o mesmo já se deu com governantes de outras siglas. Lembrem-se do efeito sanfona que sofreu o mandato presidencial: de 4 para 5, de 5 para 4, com ou sem reeleição, conforme conveniências.

Mário de Andrade, ao escrever o romance Macunaíma, deu forma literária brilhante a um arquétipo brasileiro, expresso no subtítulo do livro: o herói sem nenhum caráter. Falta de caráter ligada à ausência de princípios, de valores e conceitos para pensar a realidade política e social, bem como a conduta individual. Tudo se resume ao puro olfato oportunista, para o qual tudo é permitido. O próprio Lula, em entrevista dada na Espanha, quando do escândalo do mensalão, se recusou a agir segundo o que chamou de “principismos”. Criou uma palavra nova e se auto-definiu. É um homem despido de princípios e isso configura para ele a essência da ação política. Não menos do que FHC, aliás. O que os separa é apenas o fato de que Lula é um Macunaíma do ABC e FHC é um Macunaíma dos Jardins. Um bebe pinga, outro bebe vinho. Um se vangloria das coisas que ignora e outro ignora as coisas das quais se vangloria. Na essência, são idênticos.

Mas não se trata de fenômeno só brasileiro, infelizmente. Os jornais publicaram, quando da posse, em El Salvador, de Maurício Funes, a foto de um cartaz que lista “líderes esquerdistas”: Fidel, Chávez, Morales, Correas, Ortega, Monserrat e um certo Dasilva. Ficamos sabendo que estes são os representantes da esquerda, sem saber o que isso significa, é claro.

Um dos grandes equívocos das esquerdas sempre foi entronizar estas figuras de grandes líderes, de condutores de povos, de pais da pátria, como os feitores do futuro. Este culto à personalidade é mortal para qualquer pretensão politicamente renovadora. É disso que qualquer pensamento avançado deveria se livrar para inaugurar, no século XXI, algo de novo com relação ao século XX.

Desta forma, a insistência em se voltar à questão da reeleição – cujo ícone é Chavez, que será reeleito ad aeternum – está ligada ao caráter autocrático dos líderes propostos. Eles precisam se eternizar e, por outro lado, não permitem que novas vozes surjam no horizonte político. Sem Lula, seu partido estará órfão. A razão decorre da ausência de proposta política de verdade. Socialmente, é possível transferir idéias, mas não carisma ou popularidade. Como não se trata de idéias, nada há a transferir. Lembra o mito primitivo do pai primordial, que mata todos os filhos.

A alternativa? Lamento informar: não há. Do lado dos “liberais” – como se Lula não fosse um deles... – o panorama é o mesmo: a ausência de pensamento político leva ao mesmo oportunismo selvagem. Talvez nos reste apenas o desgosto de observar o ridículo da situação enquanto cultivamos nosso jardim, como aconselhava Voltaire.

 

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