O homem que lia seu jornal

 

 

Roberto Gomes

 

O homem já estaria lá quando cheguei, mas não o vi. Havia nele algo de invisível, eis a verdade. Nele e naquele paletó cinza, naquela calça azul-clara e naqueles sapatos pretos e amarrotados que calçava. Sentado numa mesa pequena, no fundo da lanchonete, junto à parede de tijolos a vista, ele me chamou a atenção quando moveu o jornal. Aliás, não foi o movimento que me chamou a atenção, mas o barulho – barulho de jornal sendo aberto, dobrado, remexido. Eu conhecia aquele barulho. Virei-me e lá estava ele.

O homem parecia uma mistura confusa de cabelos grisalhos, de paletó dormido, de jornal sendo triturado contra a mesa. E ele empunhava uma esferográfica. O que faria aquele homem naquela mesa de lanchonete lendo um jornal com uma esferográfica na mão? É verdade que ele tinha um ar investigativo, descendo os óculos de lentes grossas na direção do jornal, como se quisesse tirar dele o máximo possível. O que buscava?

Constrangido com minha própria curiosidade, tentei me concentrar no sanduíche que o garçom colocara na minha mesa. Tentei esquecer o homem. Não o esqueci. Me esforcei para não prestar atenção nele, só isso. Que me interessava aquele sujeito que jamais vira, com aquele ar cinzento, com aquele modo desastrado de ler jornal? Foi quando notei um detalhe: o homem não se servira de nada. Na mesa, só o jornal e a esferográfica.

Ele oscilava para frente e para trás. Amolecia-se na direção da mesa, como se ele fosse um imenso edifício desabando em câmara lenta, e, depois, vítima de um pequeno susto, voltava a se aprumar. Estava cochilando. Ali, no meio da lanchonete barulhenta, com gente falando alto, rindo, discutindo, o homem cochilava.

E cochilava de uma forma decidida. Cada vez que sua cabeça descia na direção da mesa, ele ameaçava afundar muito além do jornal, como se cumprisse alguma jornada da qual não quisesse perder detalhe algum.

Pensei que ele poderia, numa daquelas investidas na direção da mesa, bater a cabeça, espatifar seus óculos, ferir-se. Mas ele era dotado de algum mecanismo de controle. Quando estava a uns três centímetros da mesa, sofria um golpe assustado e retornava a cabeça para trás. Era muito hábil nisso.

Que idade teria? Setenta e cinco anos, algo assim. Era o que dizia o rosto castigado, as orelhas enormes, os olhos tristes. As mãos também eram antigas, lentas e antigas. As costas curvavam o paletó cinza, criando uma previsível corcunda pontiaguda. Tudo era meio surrado, meio velho e antigo naquele homem.

Fiquei pensando no que faria ali, por volta das cinco da tarde, com uma esferográfica e um jornal, sentado sozinho numa mesa, cochilando e sem ligar a mínima para o mundo a sua volta – mundo que nesse momento passou a incluir duas jovens barulhentas que passaram sem que o homem lhes dedicasse qualquer atenção.

Que profissão teria?  Impossível dizer. Aposentado, é claro. Teria sido funcionário público. Ou encarregado de algum setor de estoque. Contabilizou caixas e pacotes a vida inteira. Entradas, saídas, saldo. Anotou coisas em papeizinhos, fez relatórios, seria o encarregado de chavear o depósito pontualmente às seis e cinco da tarde, quando voltava para casa. Ou quando vinha para a lanchonete?

Eu não sabia nada sobre aquele homem, eis a verdade, nem sobre as duas jovens que voltaram da toalete fazendo aquele alarido com que as mulheres freqüentam as toaletes. O homem não as viu. Agora sua cabeça descia muito devagar na direção da mesa e dois garçons o observavam, rindo de seus cochilos. Quem sabe eu devesse dar uma bronca nos garçons, reclamar com o gerente, acordar o homem, aconselhando que fosse dormir em casa? O homem teria uma casa? Para onde iria aquele homem depois de cochilar naquela mesa de lanchonete?

Paguei minha conta e, ao sair, passei ao lado de sua mesa. A esferográfica repousava sobre o quadriculado de algum quebra-cabeça. Traços desconexos haviam sido rabiscados no jornal. Me afastei preocupado em não fazer barulho algum que pudesse perturbá-lo, mas ainda vi quando a cabeça do homem desceu uma última vez e repousou docemente sobre seu braço. Agora dormia profundamente.

 

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