O futuro já era?

Roberto Gomes
Uma coisa parece certa.
Jamais sabemos aonde nos levarão as descobertas humanas. Há o caso do
matemático que festejou ter afinal criado uma teoria que não servia para nada;
hoje, suas idéias têm larga aplicação. Estivesse vivo, ficaria decepcionado.
Lá pelos anos 1970, quando
era moda o estruturalismo, li uma coletânea de ensaios sobre esta coqueluche
filosófica da época. Mas só lembro da frase inicial de um dos artigos: “o
automóvel tende à imobilidade”.
Ao ler, me chamou a
atenção o inusitado da frase, seu paradoxo. Daí que a guardei na memória e
esqueci do autor, do ensaio e seu conteúdo. Na verdade, acho que tomei a frase
como um truque retórico para se começar de forma divertida um estudo filosófico
que costuma ser meio cacete. Ou seja, não a levei a sério, pois mesmo nos
nossos piores pesadelos, não prevíamos que agora, em 2008, estaríamos quase
chegando ao limite da tal imobilidade. Hoje, todos sabemos que a imobilidade
ronda nosso trânsito e que, não falta muito, nossas ruas se converterão num
imenso estacionamento.
Quando o computador
pessoal começou a se tornar popular, ali pelos anos 1980, li vários artigos
dizendo que estávamos no final do uso do papel. Tudo se tornaria digital,
eletrônico, virtual. Nada estaria nos papéis, nem mesmo os jornais. Nossos
textos e desenhos e gráficos habitariam outro mundo, feito de pixels, luz e
sombra, cheio e vazio, um e zero.
O que se viu, porém, é que
o consumo de papel disparou. Ao datilografar, se escrevia uma vez e se fazia
uma revisão minuciosa com caneta antes da datilografia definitiva. No micro,
fazemos e refazemos o texto e imprimimos várias cópias, seja pela facilidade,
pela qualidade, pelas experiências possíveis de formatação. E haja papel. Antes
eram apenas duas folhas bem calculadas, pois datilografar consumia tempo e
algum sofrimento.
Neste mesmo momento, se
dizia – e os Cadernos Bs dos jornais se encheram com
teorias mais ou menos exóticas a respeito – que estávamos no fim da era da
palavra. Com a vitória da imagem, deixaríamos de usá-la. Além de se tornar
virtual, tudo seria pura imagem. Em lugar de palavras, usaríamos os ícones que
o computador colocava à nossa disposição – o lixinho
do Macintosh era um exemplo
sempre recorrente – e logo estaríamos nos comunicando eletronicamente fazendo
uso apenas de sinais, signos, símbolos, esquemas. As pobres palavras se
encaminhariam para o rol das coisas gastas e inúteis. Até os poetas caíram
nessa armadilha.
Foi isso que se deu? Não.
Nunca, como nestes anos, foram produzidos tantos textos, quantidades imensas,
incontáveis, incontroláveis. De e-mails a poemas, documentos, planilhas,
recados, mensagens, enviamos palavras de um lado para outro do planeta a uma
velocidade assustadora. Se por um lado o micro aposentou a velha e nobre arte
de escrever cartas – uma perda irreparável – por outro lado qualquer sujeito,
no seu dia-a-dia, por trabalho ou diversão, produz textos e mais textos no
micro. Se somarmos tudo que se escreveu no planeta desde 1980 – tomando esta
década como ponto de partida –, aposto que a quantidade de palavras supera o
que todas as bibliotecas armazenavam até então.
Desta forma, o automóvel
tende à imobilidade, ao contrário da fantasia de liberdade que estava associada
a ele desde que foi criado. O papel não foi aposentado – ao contrário,
encontrou novos empregos: impressão de textos, de fotografias, criação de obras
de arte, explodindo em consumo. As palavras seguem soberanas e somos delas os
servos de sempre.
Eis porque não gosto de
profetas. Aliás, não é que não goste deles, acho até que são criaturas
divertidas, mas se dedicam a um ofício sem futuro, qual seja, prever o futuro.
Por exemplo: quem poderia prever que, com a tecnologia de ponta que o e-mail
coloca à nossa disposição, nossa caixa de correio virtual se tornaria uma
chateação, cheia de tolices, conselhos paranóicos, venda de viagra, métodos de
aumento de pênis, apresentações chatinhas com musiquinha aborrecida, conselhos
de auto-ajuda que fariam corar o conselheiro Acácio?
Ninguém poderia prever.
Nos resta algum motivo para otimismo, no entanto. Podemos ao menos aprender que
é inútil qualquer previsão do futuro. É melhor que ele nos surpreenda.
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