O filho do Ariel e outros filhos

 

Roberto Gomes

 

 

Até poucos dias, eu não tinha a menor idéia de quem fosse Omri Sharon. Hoje sei que se trata de um sujeito gorducho, grandalhão, com uma careca enorme que lembra a figura do Kojak, aquele da antiga série policial da televisão. Mas isto, é claro, é secundário.

Omri Sharon é filho do primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon. Seu pai é uma espécie de semi-deus em seu país, considerado herói de guerra e grande estadista. Está, como todos sabem, na UTI de um hospital israelense lutando para sobreviver a um derrame. Mas isto, por mais chocante, também não tem importância neste momento.

Não estou pensando em Ariel e sua saúde, nem em Omri e sua aparência física.

O fato é que eu não conhecia Omri e agora sei que ele, filho de Ariel, era deputado em seu país. Sei, pelo que dizem os jornais, que andou praticando uma falcatrua com dinheiro arrecadado pelo seu partido. Não sei ao certo o que ele fez com o dinheiro nem qual foi o truque que usou, mas sei que se trata disso que aqui no Brasil nós chamamos de caixa dois e os portugueses, por razões insondáveis, como sempre, chamam de “saco azul”. Tem mais graça o nome português.

Pois bem, chego afinal ao que importa: um tribunal de Telaviv condenou Omri Sharon a nove meses de detenção, mais nove meses de prisão condicional e pagamento de multa de 300 mil shekels (53.651 euros) por violar a lei de financiamento de partidos e prestar falso testemunho, favorecendo seu pai com a arrecadação de doações sete vezes maiores que o permitido. Assim, Omri, ex-deputado, filho de Ariel, está em cana.

Eis meu espanto: está em cana! Foi condenado a nove meses de prisão por arrecadar, dizem as folhas, mais dinheiro do que o permitido. Passo o dia pensando: então, em Israel, se pega o filho de um herói nacional, um saudável sósia do Kojak (que era herói a seu modo), burlando a lei a respeito do financiamento de campanha e coloca-se o tipo na cadeia?!

Quase perdi o sono, confesso. Aqui, deputados pegos com a boca na botija e réus confessos estão sendo absolvidos. O próprio Delúbio, com aquele visual amassado de quem está com o banho por tomar, reduziu seu próprio ato ao status de “piada”. O presidente Lula, numa festinha recente, declarou (sempre aos berros) que “errar é humano”. Grande filosofada. Errar é humano, matar é humano, trair é humano, roubar é humano, poderia ter acrescentado. Só que este argumento metafísico não dispensa quem erra das penas previstas em lei. No caso de Omri, que não vive no Brasil, cana.

Aqui, assistimos ao circo das CPIs irem e virem, ouvirem dono de restaurante que tem mulher bonita, empresário que tem secretária feia, e não se chega a nenhuma conclusão. Nem mesmo, na versão do dubitativo filósofo Lula, se sabe se houve ou não mensalão, se a grana foi ou não distribuída a suas excelências, se o dinheiro veio do exterior ou de alguma estatal. Ou se caiu do céu. Não se chegou a nenhuma conclusão e, sobretudo, não se prendeu ninguém.

Ao contrário, todos vimos deputados comemorando com champanhe a impunidade conquistada, outros dançando num baile em São Paulo, outro passeando na praia. Vimos coisas espantosas que o Lula chamaria de “humanas”. Só não vimos ninguém em cana, tal como aconteceu com o – me arrisco a dizer – pobre do Omri Sharon.

Fosse no Brasil, apareceria um juiz declarando-se comovido com o fato de Ariel e seu filho, cada um a seu modo, estarem sofrendo muito e, de imediato, libertaria Omri da cana. Foi o que aconteceu no caso Maluf. O relator da ação no STF, Carlos Velloso, ficou comovido. Disse ele: “Nós, que somos pais, podemos imaginar o sofrimento do paciente”. E emendou: “Eu realmente imagino o sofrimento de um pai preso na mesma cela que o filho. Isso me sensibiliza.”

Muito humano, este juiz, chutaria o Lula. Na época, eu, que sou distraído, pensei em avisar ao meritíssimo Carlos Velloso que nas cadeias brasileiras devem existir dezenas de pais e filhos dividindo uma dura. O juiz iria libertar a todos?

Não. Libertou apenas aos malufes em questão. Ficou com peninha, o que é compreensível, sendo o Brasil um país cordial, governado pelo coração e não pela letra fria das leis. Aqui as leis valem dependendo do acusado, do crime, do momento político. Ao contrário de Israel, onde as leis parecem valer para todos, inclusive para o filho do Ariel.

Por isto, cá estou eu com a minha perplexidade, que compartilho com todos os brasileiros que ainda não sucumbiram ao cinismo. Espero apenas que o número de nossa confraria de perplexos esteja aumentando.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br