O Carnaval não é aqui

 

Roberto Gomes

 

 

Era o ano de 1965.

Um amigo veio do Rio para uma visita a Curitiba. Desceu na rodoviária, perguntou aqui e ali, mas não conseguiu achar o endereço da pensão onde morávamos. Sem saída, ficou banzando pela rua XV e, quando bateu o horário comercial, telefonou para o banco onde trabalhávamos.

- Cheguei, anunciou. Estou na esquina da XV com a Oliveira Belo.

Fugindo do gerente, fomos encontrá-lo uma hora depois. Lá estava ele. Cabelo cumprido, bermuda, barba, óculos escuros. Chinelo de dedo. Parado diante de um café. Quando nos aproximamos, fez um sinal e resmungou:

- Faz que não me conhece, faz que não me conhece.

Passamos direto. Ele continuou estacionado na calçada. Entendemos o que estava acontecendo: nosso amigo havia virado curiosidade pública e, gozador, se divertia. Os chamados transeuntes passavam sem esconder o espanto que sentiam. Um sujeito cabeludo trajando bermudas! Barba e óculos escuros! Segurando uma sacola de viagem! E com chinelos de dedo!

No café, uma pequena multidão se juntara para examinar o fenômeno. Os comentários eram dos mais diversos. Um baixinho de queixo grande garantia que se tratava de um ator. A seu lado, um sujeito com voz rouca insinuava que seria fugitivo de algum hospício. Todos riam, enquanto lá fora, uma senhora fazia uma curva larga, afastando o filho de cinco anos da misteriosa criatura.

E lá ficou ele, divertindo-se com sua celebridade municipal. Quando começou a juntar uma perigosa multidão, resolvemos afastá-lo dali. Nunca se sabe.

Claro, foi no remoto século passado. Mas, sempre que se aproxima o carnaval, me lembro deste episódio.

Curitiba fica vazia. É uma das marcas do carnaval curitibano. A outra, são as entrevistas e reportagens que nos oferecem os jornais, as rádios e a televisão. São matérias alarmantes e assustadoras.

Nas rádios, repórteres esbaforidos anunciam as medidas de segurança previstas para o carnaval. Oferecem o número de policiais, indicam quais as delegacias de plantão, informam sobre o número de acidentes do carnaval passado. Tudo isto em meio a alertas a respeito do perigo que representam as bebidas, os excessos (sempre há uma preocupação com os excessos) e, é claro, recomendam sexo seguro.

Na televisão, longos debates sobre as motivações dos carnavalescos, entrevistas com psicólogos, sociólogos, educadores – nenhum economista, graças a Deus. Todos muito preocupados. Recomendam que o divertimento seja responsável. Alguém alerta que unir álcool e direção é uma mistura explosiva.

Há um alerta geral no ar, como se Curitiba estivesse prestes a ser invadida por hordas selvagens ou por alienígenas capazes de colocar a população em perigo.

Mas não é o pior. O pior são os debates. Há ou não carnaval em Curitiba? Tenho dois amigos que, sai ano entra ano, são escalados para incendiar este ritual purificador. Defendem que não há carnaval e fazem chistes vários defendendo a tese – se assim posso chamar – de que não deve haver carnaval em Curitiba. Não deve.

Além disso, há entrevistas com carnavalescos magoados que garantem que o carnaval curitibano existe, sendo uma manifestação que, sem a riqueza suspeita de outros lugares, é “pura”. Troco de canal antes que ele diga que é também uma manifestação “sadia”.

Eis porque, no carnaval curitibano, me sinto perdido. Onde se meteram os curitibanos? Leio nos jornais que o litoral paranaense está abarrotado de foliões. Há trio elétrico e muito barulho. 300 mil foliões numa só praia. Além disso, no litoral catarinense, registram-se invasões de curitibanos, que vão se divertir em Florianópolis, Camboriú, Laguna.

Os curitibanos, vejam , saem da sua cidade para se divertir em outros lugares. Logo, concluiria Descartes, gostam de carnaval. Mas não gostam de fazê-lo em Curitiba, espaço urbano preservado dos perigos reais e/ou imaginários pressentidos pela mídia.

E assim, Curitiba, toda pura e pudica, preserva-se como lugar sério onde não se solta a franga impunemente. Para distração de intelectuais e carnavalescos, existem os debates em torno da questão transcendente: há carnaval em Curitiba? deve haver? Enquanto isso, curitibanos e curitibanas, que alardeiam ser criaturas fechadas, formais, introspectivas e um tanto azedas, buscam outros quintais para liberar a franga indomável.

Ingênuo e distraído, me pergunto: por que não aqui?

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br