O canário

 

Roberto Gomes

 

Apesar do tumulto do trânsito, o homem ouviu o canto do canário. Custou a acreditar. Parou, olhou em volta. Canário? Aqui? Não era possível um canário naquela babel de cimento, asfalto, poluição, buzinas, pensou ele, retomando a caminhada. Mas o canto do canário tornou a vencer o tumulto.

Não havia dúvidas, era um canário. Ele o descobriu numa gaiola dependurada em frente a uma portinhola marrom, ao lado de uma vitrine e por debaixo de uma placa: aviário. Era um aviário espremido entre um chaveiro e uma loja de produtos naturais. Aguardou o sinal e atravessou a rua.

O sol tornava as penas do canário ainda mais brilhantes e, quando ele parou a dois passos da gaiola, o pássaro pareceu sentir a presença de público, estufou o peito e voltou a cantar.

Era um belo canto, tão belo quanto o de outro canário que tivera há muitos anos. Não tão belo, corrigiu-se o homem, com alguma culpa. Ou estava sendo injusto? As lembranças sempre melhoram o passado. Até as dores doem menos quando lembradas. O melhor cantor, o melhor jogador de futebol, o melhor livro. Tudo, no passado, é melhor e insuperável. Talvez cantasse tão bem quanto aquele do passado. Mas não devia perder tempo com isso. Melhor apenas ouvir.

Ali ficou, ele e o canário, que cantava alucinado, brilhando ao sol.

Foi quando um menino o puxou pelo casaco. Era um mulatinho dentuço, de olhos vivos:

- Quer comprar o canário, moço?

- Não. Estou só ouvindo.

- É baratinho, moço.

- Claro, claro – fez, impaciente, evitando perder alguma variação no trinado do pássaro.

Talvez fosse melhor retomar a caminhada. Fez um sinal para o menino, despedindo-se, mas não chegou a sair do lugar. O canário retomou o canto.

- Tá vendo, gostou do moço.

Moleque safado, pensou ele, sorrindo. Disse:

- Espera. Estou pensando.

O mulatinho abriu um sorriso luminoso:

- Se pensar bem, vai comprar – e sumiu pela portinhola marrom.

Há anos deixara de ter pássaros. Já não gostava da ideia de vê-los aprisionados em gaiola. Talvez fosse uma bobagem, mas não conseguia evitar um desconforto ao se imaginar carcereiro de um passarinho. No entanto, sabia que aquele tipo de canário não tinha condições de viver livre. Sozinho, morreria de fome ou seria presa fácil de predadores.

Imaginou um lugar onde colocar o canário no apartamento. Junto à janela da sala, é claro. Era um lugar arejado, de boa iluminação. Produziria certa sujeira no chão a cada dia, restos de alpiste, mas isso era o de menos. Ali o canário não teria predadores e, bem alimentado, cantaria feliz.

O mulatinho surgiu por detrás da vitrine e acenou para ele. Fez um sinal dizendo que continuava pensando. O mulatinho sorriu.

Mas havia um problema. Se fosse viajar? Não viajava muito, mas tinha alguns planos, pequenos passeios a fazer. Quem cuidaria do canário? Jamais poderia viajar. Não haveria quem cuidasse dele.

Melhor desistir. Aproveitou o sumiço do mulatinho e caminhou até a esquina, mas voltou em seguida. O canário cantava, pedindo companhia.

Descobriu então um novo problema. Com o tempo ele se afeiçoaria ao pássaro. Imaginou-se sentado ao lado da janela, olhando o movimento lá fora, enquanto o canário cantasse. Ali ficariam os dois, cada um com seus pensamentos, o canário inventando música e ele vagabundeando a mente vazia.

Tomou uma decisão: não compraria. Teria que aprisionar o bichinho e não poderia ausentar-se jamais. Ficariam os dois dependendo um do outro para sempre. Depois, um bichinho desses pode morrer a qualquer momento. Ele sofreria muito com isso. Aliás, ele também poderia morrer. O que seria do canário?

- Vai levar? – o menino materializou-se a seu lado, a dentuça sorrindo.

- Vou pensar, disse.

- O moço pensa demais.

É, pensava demais. Afagou a cabeça do menino e se afastou sem ouvir a opinião do canário.

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CONVITE: no dia 17 próximo, quarta, estarei autografando meu novo romance, O conhecimento de Anatol Kraft, no bar Original Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678, Alto da XV), a partir das 19 horas. Será um prazer contar com a presença dos leitores.