O Rio é um bordão

Roberto Gomes

Todos sabem o que é um bordão. Uma frase, não raro de duplo sentido, que um personagem dispara em determinadas situações, provocando gargalhadas quase automáticas. Max Nunes – hoje na Globo, tentando transformar Jô Soares em um sujeito engraçado – fabrica tais bordões desde os tempos da Rádio Nacional.

Mas isso todos sabem. Vamos ao caso que devo contar.

Estava dando um descanso aos meus neurônios, quando liguei a televisão e vi um ator do qual gosto muito, Peter Falk. Ele foi Columbo, um detetive trapalhão e genial, numa série que merece ser vista e revista sempre.

O filme não prometia muito, mas Falk é sempre divertido. Fui ficando. Era um destes filmes, sempre os mesmos, em que vigaristas dão um grande golpe muito bem bolado, sendo que o enredo coloca tropeços e ganchos aqui e ali para prender nossa atenção. Por isso fui ficando. Chama-se Um roubo quase perfeito – não confundir com Um crime quase perfeito, que é da série Columbo. Filme impensável no Brasil, pois não tem socos, tiros, ninguém dá cabeçada no nariz de ninguém. E, ao contrário da moda nacional, policiais e bandidos não passam o tempo subindo e descendo morros. Também não há tortura, nem sadismo prêt-à-porter, nem suco de tomate invadindo a tela. Ao contrário, os vigaristas andam em carros de luxo – no Brasil também, admito, mas sobre ladrões de luxo não se fazem filmes por aqui – vestem-se bem, falam sem usar cinco palavrões a cada quatro palavras. Gente fina, portanto. Tratava-se, é óbvio, de roubo de jóias. Aparece uma mulher charmosa, é claro. Falk tem um companheiro não tão esperto quanto ele, mas que não deixa de ser um gordinho com algum encanto de Sancho Pança. Feito o roubo, um detalhe não previsto no planejamento faz com que Falk vá em cana. Mas o gordinho escapa. E a mulher charmosa fica esperando Falk sair da cadeia.

No entanto, tratando-se de televisão, neste meio tempo chegou aqui em casa um caminhão trazendo uma máquina de lavar louça, além de um menino oferecendo-se para amolar facas. Ou seja, com estas duas interrupções, perdi parte do filme. Fiquei sem saber como decorreram os últimos dez minutos antes da cena final, que se passa dentro de um avião. Lá estão Falk, o gordinho e a bela mulher tomando champanhe em meio a uma festa. Falk abraça e beija a bela mulher e, enquanto vemos a silhueta do avião subindo aos ares, o narrador enche a tela com a frase final: “e rumamos para o Rio”.

Vejamos. Assisto cinema desde quando era um menino de seis anos, acho. Já vi uma quantidade enorme de filmes. Bons e ruins. Sobretudo ruins, os bons aparecem lá uma vez ou outra. Filmes com bordões, já vi muitos. Com idéias feitas, dezenas. Com preconceitos bobos, centenas. Mas este filme me deixou uma questão a corroer o cérebro: quantos filmes já vi que terminam com vigaristas fugindo para o Rio?

Pois acho que devo recorrer a desses meus amigos cinéfilos que têm uma espécie maníaca de memória, capaz de registrar os detalhes mais insuspeitos. Frases, imagens, quem era o fotógrafo de tal filme, quem escreveu o roteiro daquele outro etc. Pois desafio o Almir Feijó, o Emmanuel Appel e o Cláudio Lacerda a me dizerem uma coisa: quantos filmes terminam com os vigaristas tomando um avião rumo ao Rio?

É verdade que Rio aí está no lugar do Brasil, não deixemos os cariocas passarem vergonha sozinhos. Quando ainda adolescente, ao ouvir este bordão, eu ficava irritado com os americanos chauvinistas, enchia-me de nacionalismo bobo, pois era mais inocente do que uma freira noviça. Agora, fico pasmo como eles anteciparam em muitos anos a pátria da impunidade em que nos transformamos – ou já era assim? Continuo um tanto noviça, está visto. Em todos os casos, este filminho do Peter Falk me fez pensar que o bordão final é adequado para um país onde um ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, diz que um réu só pode ser preso se condenado em última instância. Que tipo de vigarista ele estará protegendo? Quem é que não vai – e não deve ir – preso no Brasil?

Esse ministro é um raro caso de clarividência do passado. Um profeta do antanho. Fosse no filme do Peter Falk, ele deveria tomar um avião e ir para... bom, para o Rio, vá lá.

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