Os vários andares do paiol de pólvora

 

Roberto Gomes

 

 

Todos admitem que com o tempo a torre de Pisa sofreu uma inclinação progressiva, que chega hoje a 5 graus. Mas a verdade é outra, sendo a objetividade e a unanimidade um grande erro. Quem percebeu o fenômeno foi o escritor Campos de Carvalho ao contar a história do professor Pernacchio, que morou em Pisa, mais exatamente ao lado da torre, motivo pelo qual acabou ficando também ele um tanto inclinado. Mais ou menos como nos acontece diante de um quadro dependurado numa parede e que esteja fora de prumo – nossa tendência imediata é nos inclinarmos para corrigir o desconforto. No entanto, Pernacchio, depois de acuradas observações, chegou à conclusão de que a torre não se inclinou – ela continua na vertical, como sempre. A cidade de Pisa é que sofreu uma inclinação de 5 graus, o que nos dá a ilusão de que a torre não esteja apontando o zênite.

Esta é a primeira constatação científica que oferecemos a nossos leitores: a torre está na vertical – a cidade de Pisa é que se inclinou.

Aos que duvidam do professor Pernacchio, oferecemos um exemplo fácil de entender e que devemos a Tenório Espadin (pronuncia-se Espadã, pela origem francesa, e dele logo falaremos). Trata-se do Teatro Paiol. Quem nunca parou diante dele, olhando-o lá do outro lado da rua, e não teve a sensação de que se trata de uma construção que foi com o tempo afundando terra adentro? Só sobrou de fora um andar, o mais alto de todos. Ele e o telhado.

Mas, ao contrário do que se divulga e do que registram as fotografias mais objetivas, a construção que deu origem ao teatro não tinha aquele único andar modesto, que lhe dá a aparência enganosa e brincalhona de uma torta de maçã de desenho animado. Quando inaugurado, era uma construção formada por vários andares, talvez dez, quase tão alto quanto a torre de Pisa.

Mas ocorreu um fenômeno. O teatro foi ano a ano perdendo altura, andar após andar, aparentemente sumindo chão adentro. Aparentemente. O que explica o fenômeno não é a construção ter afundado, mas o fato de que o solo da cidade de Curitiba se elevou. Anos de movimentação de terras, de aberturas de novas avenidas, de colocação de sucessivas camadas de asfalto, muitos quilogramas de gramas plantadas sobre gramas anteriores, acumulação de lixo nas redondezas, xepas de cigarro jogadas ao chão pelos que esperam nas filas de entrada, programas de espetáculos atirados fora após os shows – e o solo foi subindo.

Na verdade, toda a cidade sofreu o mesmo processo, um explosivo inchaço, o que conduziu à situação atual: um único andar, com sua bonomia lúdica, seu ar festivo de tendinha no deserto, de alegre cirquinho de interior.

Portanto, segunda conclusão científica: o teatro original não afundou no solo curitibano. A cidade é que inflou com o tempo, engolindo vários de seus andares.

São essas as conclusões a que chegou um descendente do professor Pernacchio, o nefelibata Tenório Espadin, ex-assessor da Nasa, que hoje mora na Vila Pinto, disfarçado em catador de lixo para poder pesquisar em paz. Assim como a torre de Pisa não se inclinou, o teatro Paiol não afundou. A primeira sofreu com a inclinação da cidade de Pisa e, o segundo, com a inflação de Curitiba. O mundo, segundo Tenório Espadin, raramente é simples – o que explica os equívocos da objetividade e o caráter razoável das teorias que ele adota.

De fato, é preciso que a chamada realidade se incline diante da arte – e não o contrário. E que as cidades se contenham na ânsia de devorar andares de teatros, obras de seus artistas, mágicas de seus malucos. Os supostos erros arquitetônicos não estão na inabilidade dos arquitetos, mas na visão pouco aguda dos observadores.

É por esta razão que Tenório Espadin alega que nas noites mais feéricas, ao passar em frente ao Paiol com seu carrinho de lixo e um cigarrinho esperto nos lábios, ele pode ver através da grama, da terra, do cimento, o que se passa nos andares mergulhados no subsolo. E jura que lá estão, em conversa perpétua e farra desbragada, o Sérgio Mercer e o Vinicius de Moraes, além de uma quantidade enorme de músicos, cantores e cantoras, palhaços, compositores, violeiros e atores que por ali passaram.

Tenório Espadin delicia-se com este espetáculo por instantes e vai em frente, ocupado que está no momento em demonstrar que a Ponte Preta, que aliás é branca, não foi construída onde é fotografada hoje, mas nas proximidades do paiol original, que tinha um único piso e que explodiu, arremessando-a, coberta de fuligem – de onde vem ilusão de que seja preta – para o entroncamento da João Negrão com a Sete. Por isto foi construído o Paiol atual, com os vários andares que Curitiba soterrou.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br