Novela nossa de cada dia

Roberto Gomes

 

Não vejo novelas. A última que me prendeu ao sofá foi escrita pelo Dias Gomes, que era um craque. Hoje, quinze segundos de novela bastam para me matar de tédio. Os mesmos personagens, o mesmo enredo, as mesmas caretas, as mesmas frases idiotas, as mesmas cenas toscas, a mesma história chata.

As novelas são ridículas. Há um provérbio – que dizem ser francês – que assegura que “o ridículo mata”. Sendo fulminante e sintético, o provérbio tem jeito de francês, mas talvez não funcione. É o que afirma um amigo meu – alemão, é claro – ao lembrar que, fosse verdadeiro o provérbio, todos os franceses estariam mortos.

Bom, rixas regionais à parte, devo confessar que eu não queria falar nem de provérbios, nem de franceses e muito menos de novelas. Vamos ver se retomo o fio da meada e rearranjo os cacos desse texto para fazer com eles uma crônica.

Os leitores acompanham há duas semanas as cenas lamentáveis vindas diretamente do Senado Federal. Aliás, acompanhamos a mesma novela (eu disse novela?) desde os tempos remotos do mensalão.

O enredo é o mesmo. Surgem acusações, chovem denúncias, gravações, evidências, depoimentos comprometedores. Coisas que fariam qualquer vereador japonês cometer suicídio diante das câmeras. Não no Brasil, é claro. Aqui os limites da vergonha na cara são complacentes. Os personagens entram em cena com suas caretas e truques. Dizem que não sabem do que se está falando. Fazem caras e bocas indignadas, furibundas, dramáticas. Gesticulam. Ameaçam processar e divulgar sujeiras dos acusadores, como se a sujeira alheia fosse detergente para sua própria imundície. Declaram que não sabiam de nada, não podem controlar todas as instâncias do poder, sempre há um aloprado aqui e ali, um decreto secreto mais adiante, um burocrata que se excede. Assumem ares de vítima. Insinuam que seus inimigos os perseguem, que a imprensa faz campanha contra eles. Ninguém respeita a biografia de ninguém, diz Lula, o protetor de mensaleiros, de aloprados e, agora, do José Ribamar, vulgo Sarney.

Como a cada semana surge um novo escândalo – aliás, dona Dilma, a autocrata, está envolvida no mais recente – eles sabem que em alguns dias os telespectadores estarão saboreando as carnes frescas de outro acusado. E a novela – eu disse novela? disse-o bem – continua.

O duro é aguentar o desempenho dessa gente. Um deles, chamado Fernando, que imaginávamos sepultado há anos, reaparece de dedo em riste, tremelicando as bochechas e os lábios – como foi dito, esses atores só conhecem poucas caretas – e cobre de desaforos um dos poucos senadores pelos quais ainda temos respeito. Ele não argumenta, como deveria fazer, mas xinga, ofende, ameaça. Parece guri de rua. Daqueles briguentos. É apenas um farsante, sabemos.

Outro, conhecido pelos péssimos livros que escreveu (consultem Millôr Fernandes sobre a “obra” do José Ribamar), se veste de poses de grande estadista para declarar que não sai da cadeira e nem da novela, faz parte do elenco. Poderia citar um samba popular: daqui não saio, daqui ninguém me tira.

E não tira mesmo, eis a questão. Eles estão aí há anos, repetem a mesma farsa há décadas, agem com a desonestidade de sempre. Minha única e triste satisfação é confirmarem a frase que repito há anos: somos governados por delinquentes.

As novelas, admito, têm uma vantagem. Podemos mudar de canal ou desligar a televisão. Com os políticos, nada feito. O provérbio francês não funciona contra eles. O ridículo não os mata. As denúncias são inúteis. O enredo segue o mesmo e o ibope é sua garantia. Quando chegarem as eleições, cevados por trambiques, favores, miséria, ignorância, desonestidade, negociatas e bolsas-família, os eleitores votarão novamente nos mesmos. No próximo capítulo, lá estarão eles.

Acho bom os brasileiros tomarem tento, pois, do jeito como a coisa vai, o ridículo se voltará contra eles. E, como sabemos, contra o povo o ridículo é fatal. Mata.

 

Email: robertogomes@criaredicoes.com.br