Não estranhem os estrangeirismos

Roberto Gomes

 

Com alguma regularidade, volta-se a discutir o que pensar a respeito do uso de palavras estrangeiras na língua portuguesa. Há mesmo um deputado com um projeto maluco pretendendo proibir estrangeirismos – a febre legislativa dessa gente é indomável.

O curioso é que a questão é apresentada como se fosse nova, algo que só atualmente, com a informática, os filmes americanos, a música pop, a linguagem dos técnicos em administração e economia, estivesse acontecendo.

Aí começa o equívoco, que acaba levando de arrasto uma série de discussões que se transformam num show (olha o estrangeirismo!) de desencontros. Basta uma olhada nas palavras que usamos para descobrir, com uma grande frequência, a intromissão de vocábulos de outras línguas. Coisa que não é nova.

Uma primeira coleção de palavras ingressou no português vindas dos idiomas indígenas, talvez mais do que suspeitamos. Vejam : o saboroso guaraná, a inocente paçoca, o Maracanã, a afoita perereca, etc. Sem falar no magnífico urubu. Além disso, nomes de lugares e de pessoas.

A seguir, palavras que vieram de línguas africanas. Começa pelo samba, a senzala, a batucada, o bafafá. E o esporte nacional, o fuxico. O quiabo e o dendê. Como contar a história do Brasil sem falar em cangaço e da música popular sem falar em berimbau? E a bagunça política? O menino pode ser guri ou moleque. O cachimbo, o macaco e a quitanda. E há a onipresente e imbatível – no bom sentido – bunda.

Todo esse vocabulário já está incorporado definitivamente ao falar e escrever brasileiro, embora exista quem pense que sejam portuguesas. Então, viria a pergunta: o que faremos com tais palavras, caso nos obstinarmos a espantar todo estrangeirismo?

Mas não é só. Antes do inglês, através dos dois impérios recentes – Grã-Bretanha e EUA – o francês era bastante falado no Brasil (não por todas as classes, como é óbvio) e deixou pelo caminho muitas palavras e expressões que incorporamos há muitas décadas, na verdade há mais de um século. Lá vai: maiô, complô, batom, tricô, sutiã, guichê, metrô, vanguarda. E o indispensável garçom. Eu passei a infância chamando armário ou prateleira de etagér (étagère).

Depois veio o inglês, que tanta preocupação desperta nos puristas. Mas não é raro esquecermos contribuições, não desprezíveis, vindas das línguas faladas por imigrantes italianos, espanhóis, alemães etc. Influência, como todas as outras, que se dá não apenas no vocabulário, mas no próprio modo de produzir frases e expressões. Penso especialmente no italiano, de grande presença no linguajar popular brasileiro, mas também no texto literário, sobretudo de escritores paulistas, gaúchos, paranaenses e catarinenses. De Adoniran Barbosa a Sérgio Faraco, o italiano está sempre presente. De minha parte, lembro que usei vocábulos e formas de expressão com influência italiana quando escrevi o romance Os dias do demônio, que se passa no sudoeste do Paraná.

Essa falsa polêmica contra os estrangeirismos ignora o que ocorreu com a língua portuguesa quando veio ela própria transplantada para o Brasil. E é interessante lembrar que o “perigo” dos estrangeirismos é relativo e muito exagerado. Assim como certas palavras ou expressões foram incorporadas, outras sumiram depois de um sucesso momentâneo. Há algumas décadas, tudo que era grande, importante, admirável, marcante, era chamado de big – pois é, sumiu. Calça feminina, comprida, era chamada de eslaque (do inglês, slake) – hoje pode parecer ofensa.

O uso assimila ou rejeita certas modas. É tudo. E isso só faz enriquecer a língua. A língua que hoje falamos ou escrevemos, está muito longe daquela falada pelos primeiros portugueses que vieram para o Brasil, e também está distante da língua que se fala hoje em Portugal. Enfim, a língua é algo vivo, dinâmico, mutante e, como todo organismo vivo, assimila, rejeita ou transforma, conforme as circunstâncias, aquilo com que entra em contato.

Enfim, alguma paciência e certa dose de antropofagia, como queria Oswald de Andrade, poderiam colocar ordem nessa polêmica inútil.

 

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