Modéstia deixada de lado
Roberto Gomes
Tenho notado, nesta
inundação de talk shows que invade a
tela das televisões, que, dependurada na primeira resposta, lá vem uma
confissão comovente: o entrevistado é um exemplo de modéstia e humildade.
Apesar da vida sob holofotes, da fortuna astronômica, da vida de astro, dos
inúmeros seguranças, das viagens pelo mundo. Rico e (aparentemente) feliz, a
celebridade do momento se declara modesta. É uma pessoa simples.
Há muitos anos, Nelson
Rodrigues, que tinha aversão à hipocrisia, declarava em entrevista a Clarisse
Lispector que estava abismado com a quantidade de tímidos na literatura
brasileira. Todos – e Clarisse entrevistara uma penca
deles para a revista Manchete –, se declaravam tímidos. Tímidos e capazes de rubores
de anjo barroco. E Nelson disparou com ironia apoteótica: “Antes
de mais nada, quero declarar alto e bom som: eu também sou um tímido!”
Mudam os tempos, mudam os
personagens e as confissões mais ou menos sinceras. Hoje, os entrevistadores
não estão à altura de Clarisse e as celebridades não são escritores do nível
daqueles que ela entrevistou, mas criaturas que ocupam a mídia por conta de
alguma esquisitice. Há o gago profissional, a beldade moldada a golpes de
silicone, o intelectual solúvel em água com açúcar. Criaturas que por uma
esquisitice ou outra viraram celebridades e, quando menos se espera, publicam
um livro, fazem um filme, lançam um CD. Não demora e estão dando autógrafos no
livro, nas camisetas, na revista onde aparecem em poses que deixariam os
tímidos de outros tempos estarrecidos. E, é claro, declaram para começo de
conversa: apesar da fama, continuam com a mesma modéstia de quando usavam
sandálias havaianas não por moda, mas por necessidade.
O mundo está infestado de
modestos. Talvez São Francisco de Assis, caso vivesse entre nós, se sentisse
diminuído com a proliferação de tanta virtude.
Virou moda ser modesto
embora o portador desta qualidade inefável alardeie aos quatro ventos sua
postura humilde, o que não parece modesto. Deve ser de mentirinha. Aliás,
falando em humildade, o mesmo Nelson Rodrigues, pensando nas declarações dadas
por jogadores de futebol, fez outra declaração marcada pela sinceridade
contundente que cultivava: ele não era humilde, não gostava de humildes, não
achava que os jogadores, diante de um adversário qualquer, devessem se dizer
humildes. E arrematava, com a precisão de sempre: “humildade é uma virtude de
subdesenvolvidos!”
Vemos que as coisas são
mais complicadas do que parecem e que nestes dias de declarações politicamente
corretas (o politicamente correto é uma forma de se abdicar do pensamento), os
oportunistas de sempre fazem poses de bons moços, gostam do que todos gostam,
elogiam aqueles que todos elogiam e confundem, num samba do crioulo doido que
está a exigir um novo Stanislaw Ponte Preta, textos capengas com obras-primas,
musiquinha chinfrim com as “Coisas” do Moacir Santos, cinema inspirado em
novelas de televisão com Fellini ou Kurosawa.
Não se trata de fenômeno
novo, porém. Épocas de decadência já vitimaram a história da humanidade em
vários momentos e, para ficar num exemplo, lembremos que no chamado período
helenístico os gregos haviam perdido de tal forma as referências culturais que
colocavam artistas menores seus contemporâneos na mesma altura daqueles que
viveram no século de Péricles. Enfim, decadência é isto.
Assim, mudam os tempos, as
celebridades, bem como as supostas virtudes alardeadas. Marlon Brando, por
exemplo, pediu a uma índia para representá-lo na entrega do Oscar, o que
resultou num protesto histórico. Estava se lixando para o Oscar. Hoje, há quem
leve o Oscar a sério, como se representasse mais do que um evento marqueteiro
da indústria cinematográfica norte-americana. Vale lembrar que Chaplin jamais
recebeu Oscar, Fellini recebeu tardiamente – pelo “conjunto da obra” –, quando
já estava cansado de guerra. Alfred Hitchcock e Martin Scorsese estão no mesmo
time, além de Stanley Kubrick, Akira Kurosawa, Greta Garbo, Kirk Douglas e
Deborah Kerr. E John Wayne só foi contemplado quando se soube que estava
morrendo.
Em resumo, é isto: tal
como no período de decadência da cultura grega, tem gente confundindo virtude
com trapaça e chutão pra frente com lançamento a sessenta metros de distância,
o que já foi arte refinada nos pés de Gerson.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br