Milita, vai, milita

Roberto Gomes

 

O problema dos militantes é militar.

Por isto usam uniformes.

Pode ser um brinco, um anel, uma bolsa a tiracolo, uma barbicha mais afoita, uma calça rasgada, ou um terno e gravata de manequim de vitrine. Costumam não pronunciar certas palavras que consideram nefastas ou ofensivas – todo militante é politicamente correto, está visto –, e cultivar neologismos para dizer a mesma coisa. Podem não tomar banho, não limpar as unhas, uma destas coisas, dependendo da militância adotada.

Como regra, todo militante é apocalíptico.

O fim do mundo, para ele, está ali, na próxima esquina, disfarçado num ventinho suave que vem do sul ou do leste. Tudo, para o militante, anuncia alguma catástrofe. Tudo confirma o fim do mundo. O único argumento que reconhece é a hecatombe. Como o Alienista de Machado de Assis, com os olhos “devassa o futuro com todas as suas auroras”. Para ele não é possível nem mesmo amar em paz enquanto o mundo não for consertado por inteiro. (Ele diria “o mundo como um todo”, mas isto eu me recuso a escrever).

O militante, por definição e pelo risinho de mofa, se considera um ser humano muito superior ao comum dos mortais, que em sua presença são reduzidos a seres de segunda categoria. Ele sabe mais, explica melhor, é mais seguro, mais bonito aos olhos de Deus e mais desejável para os diversos sexos opostos (são inúmeros, como sabemos).

Vem daí o olhar de profunda piedade que lança às criaturas a sua volta. Eles não sabem de nada, repete ele, sem saber o que está repetindo.

Por isto seu ar professoral e o fato de considerar a todos que cruzam com ele como alunos potenciais. Ou melhor, discípulos potenciais. O militante ensina, leciona, dá aulas, discute, censura, discursa, prega, sempre em tempo integral. Fala, fala, fala. Jamais escuta. Por isto adora discípulos, diante dos quais se vê no espelho. O outro do militante é o eu-mesmo lá dele.

A biografia do militante também é curiosa. Começa com a data de seu nascimento, que é ao mesmo tempo o começo do mundo e das estrelas possíveis. Já os discípulos devem aceitar que sua vida começou quando conheceram o militante, agora seu guru.

o militante genérico, que milita em todos os setores e com igual intensidade. É mais freqüente, no entanto, o militante setorial. Ataca por áreas – um é contra o cigarro, outro contra bebidas, outro contra o futebol. Uns militam contra tipos de filmes, de livros, de música, de modos de pensar. Outros são contra enlatados, sejam filmes ou salsichas.

Alguns militam contra certas palavras e implicam com anedotas maliciosas ou de duplo sentido. Como suas idéias são sagradas, odeiam o humor, que, como se sabe, não leva nada a sério. Não raro misturam duas modalidades de militância: o cigarro e o meio-ambiente, as anedotas e os bifes suculentos, os alimentos de origem animal e os avanços da informática.

Em suma, os militantes são políticos. Políticos à moda militar. Gostam muito de debater desde que haja um único partido, um único discurso, um único sabor para os refrigerantes. Aliás, odeiam refrigerantes. Costumam ser contra o gelo, exceto aquele que aplicam nos que discordam de suas idéias.

Todo militante tem uma causa. O que causa desconforto a sua volta, pois a causa que abraça é metafisicamente perfeita e imbatível. Se você não usa o mesmo tipo de brinco, não bebe a mesma quantidade de cerveja, não se filiou ao partido dele, não viu os mesmos filmes, não gosta dos mesmos livros, cuidado. O militante, como não está no poder e não pode decretar sua prisão, espalhará que você tem caspa.

Caso o militante chegue ao poder – todo militante é um Savonarola enrustido –, continuará dizendo as mesmas coisas de sempre, mas fazendo outras. O mais doloroso para ele seria abrir mão das benesses do poder. Por isto muitos militantes se autoproclamam marginais, desde que dê lucro ou renda uns trocados. Trata-se de um marginal movido a incentivos fiscais e benesses públicas.

E, virando Dostoievski de pernas para o ar, o militante está convencido de que, se ele existe (ele, o militante), tudo lhe é permitido. Assim, além de militar, o militante é um ego-chato. Convicto de que o inferno são os outros e que o paraíso é ele mesmo.

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