Meu pai não acreditava em bruxas

 

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Roberto Gomes

 

João Gomes era um descrente – ou parecia ser. Um desses descrentes que ficam no seu canto sem chatear ninguém com sua descrença, assim como há crentes que preferem cuidar de si e não importunar o próximo. Nunca o vi numa missa e só ia à igreja quando alguma obrigação decorrente dos cargos que ocupava o exigia. No máximo, frequentava as festas do Divino Espírito Santo, que na minha infância se destinavam a arrecadar fundos para a construção da igreja matriz de Blumenau, essa que hoje virou cartão postal. Eu ia junto, igualmente desligado de qualquer sentido religioso da festa, interessado apenas em dar tiros de espingarda de chumbo em patos de metal, ganhar prêmios em pescarias, em tômbolas etc. Era uma festa. Sem crenças.

Mas João tinha lá suas crenças, ou pelo menos temores. Um deles: freiras. Desenvolveu a convicção de que freira dava azar. Quando encontrava uma freira na rua, despistava, olhava para o alto, assobiava distraído, nem queria ver.

- Guri, isso dá um azar danado, me dizia ele.

E levava o temor a extremos. Um dia desceu de um ônibus levando de arrasto uma mala e um pacote enorme quando viu que duas freiras se instalavam lá no primeiro banco.

- Esse ônibus vai bater, decretou ele, e esperou pacientemente pelo próximo.

Não sei se o tal ônibus bateu ou não. Mas ele jurou que escapara por pouco.

- Se fico, nunca se sabe.

Mas era descrente. Até certo ponto, é claro. Um dia, durante a chamada revolução de 1922, sendo ele um jovem soldado de dezenove anos, se viu em meio a uma fuzilaria infernal, sem munição, sem companheiros, que sumiram na mata, e só lhe restou se esconder numa moita e fazer uma promessa a Nossa Senhora Aparecida: se saísse vivo daquele tiroteio iria em peregrinação a Aparecida do Norte agradecer pelo milagre.

Milagre ou não, saiu vivo. Suportou uma noite inteira de escuridão e de tiros que voavam de todos os lados. Na manhã seguinte, estava sujo, faminto, com dores por todo o corpo, mas vivo. Não ouvindo mais qualquer movimento de tropas pelas redondezas e sem saber se seus amigos estavam a sua frente ou as suas costas, ele se arrastou pelo meio do mato. Quando se pôs de pé, descobriu que não tinha a menor ideia de onde se encontrava. Começou a caminhar e foi rasgando a farda em espinhos, tropeçando em buracos, afundando em banhados. Até que descobriu um rio. Era pouca coisa, mas já era uma esperança. Restava descobrir em que direção haveria alguma casa. Apostou numa direção, que não sabia onde o levaria, e continuou a caminhar beirando o rio.

Andou três ou quatro dias, talvez mais. Dependia de seu estado de espírito quando me contava mais uma vez essa aventura. A caminhada durou uma semana num dia em que estava de ótimo humor e conversávamos no chamado Bar Pinguim, no centro da cidade.

O fato é que, quando já estava comendo raízes e bebendo água do rio, chegou afinal a uma fazenda. Foi recebido com muitos cuidados. Tomou banho, comeu, bebeu, um dos homens da casa foi avisar a seus companheiros de farda que ele fora encontrado.

Recebeu elogios do tenente e a promoção para sargento.

Bom, a promessa só foi cumprida uns quarenta e poucos anos depois. Viajou a Aparecida e terá entrado na Basílica, mas não sei se rezou ou se se benzeu. Aparentemente, porém, não abandonou suas descrenças, embora eu e meu irmão Orlando passássemos a chamá-lo de frei João. O que o divertia muito.

Pois foi esse mesmo homem, sem crenças e de uma doçura malandra, que um dia ficou furioso com seu sócio no jornal. Ele agora era um dos proprietários de um pequeno jornal chamado O Combate. E acabara de descobrir que o sócio, encarregado entre outras coisas da página de palavras cruzadas e de astrologia, não contratara um astrólogo, limitando-se a recortar as previsões dos jornais do Rio e São Paulo, as quais, para não parecer falsário ou plagiário, ia distribuindo para os diversos signos numa ordem aleatória. O que constava como sendo de Leão, acabava em Libra, o texto de Escorpião passava a aconselhar Virgem.

João ficou exaltado:

- Onde já se viu? bradava ele, empunhando o jornal. Enganando os leitores!

- Mas, pai... – tentei argumentar.

- Mas coisa nenhuma! Vou dar uma bronca nesse sujeito!

Li então em voz alta o que constava para o signo de Libra: “Hoje evite se irritar com superiores. O silêncio é a atitude mais recomendável”.

Ele me escutou intrigado. Perguntou:

- E daí?

- Bom, pai, isso poderia ser dito também para alguém de Áries, não acha?

Ele olhou para o jornal, olhou para mim, olhou para a porta da redação do jornal, por onde ameaçara entrar dizendo uns desaforos ao sócio, e acabou se acalmando.

- O senhor acredita em astrologia? perguntei.

- Imagina! Acreditar nessa bobagem! – e, com o sorriso malandro de sempre, me disse, ajeitando o chapéu: Mas isso não se faz!

Pois é, acreditava em algumas coisas.