Máximas e mínimas
políticas
Roberto
Gomes

1.
É fatal: quando um
político coloca a mão em nossos ombros e, com voz sapientíssima, nos diz que
“não devemos ser ingênuos”, está nos convidando a agir e pensar como
verdadeiros canalhas.
2.
Acareação, numa CPI, é a
cerimônia em que se coloca frente a frente vários mentirosos na suposição de
que estará dizendo a verdade quem mentir com maior frieza e competência, de
preferência apoiado em números e estatísticas. Sem esquecer a cara de profunda
indignação.
3.
Quando um político se
dirige ao você como “excelência” e acrescenta que tem o maior apreço por sua
pessoa, é bom ir arranjando uma desculpa para dar lá em casa.
4.
As grandes obras sobre a
arte da política devem partir do seguinte princípio: quando um político se
defende dizendo que não sabia de nada, pode apostar: todo mundo está sabendo de
tudo.
5.
A diferença entre um santo
e um político é simples. Um santo, quando questionado a respeito de sua
santidade, se declara um pecador. Um político, quando acusado de alguma
falcatrua, esbraveja:
- Repilo!
Donde se conclui que os
santos são melhores do que os políticos, ao menos no que se refere ao estilo.
6.
Graciliano Ramos, odiava –
com razão – a palavra “outrossim”. Lascou contra ela o mais famoso palavrão da
língua portuguesa. Imagine o que ele diria do vocabulário usado na câmara, no
senado e na presidência da República.
7.
De uma coisa não há dúvida
na história da política: ao contrário da crença generalizada, os corruptos
nunca chegaram ao poder. Eles inauguraram o poder e estão lá até hoje.
8.
Para uma adequada
classificação dos políticos, é preciso levar em conta que os políticos dividem.
É o que basta.
9.
Se o amigo quer seguir
carreira na política, anuncie que fará uma coisa e faça outra, divulgue que não
pode fazer uma terceira por culpa daquele inimigo que disse que faria outra
coisa e fez uma. Todos perceberão que você está mentindo, mas isto não tem
importância. Vá em frente. Mentir ou ser flagrado mentindo é o de menos. A
segurança com que você mente basta para manter sua imagem diante de seus
eleitores, que sabem que você mente. A grande arte na política consiste em dar
aos eleitores a chance de participar de suas mentiras. Caso contrário, eles se
sentem enganados.
10.
O capitalismo é um sistema
mágico. Em sua essência, consiste em acumular dinheiro retirando-o de quem não
tem. Retirar de quem tem é considerado roubo. Retirar de quem não tem – pensem
na rica Europa retirando ouro do pobre Novo Mundo – é considerado espírito
empreendedor e civilizatório. Da mesma maneira que o
mágico retira um coelho da cartola na qual parece não haver um coelho e onde,
no entanto, há um coelho. A mágica não é retirar o coelho da cartola. É fazer
de conta que se retira um coelho de onde não há coelho.
11. Já o socialismo, como
se sabe, é o contrário. Trata-se de uma mágica em que todos sabem que há um
mágico, que há uma cartola e que há um coelho dentro da cartola. Mas, quando o
mágico vai realizar seu número, da cartola sai um rinoceronte.
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