Mário Moleque Quintana

Roberto Gomes

 

Estávamos na fila de autógrafos e poucas coisas são mais chatas do que fila de autógrafos. Foi numa dessas Bienais que, sendo todas iguais, com o tempo a gente não sabe mais se foi nesta ou naquela, em que ano e lugar.

Mas era por uma boa causa. Lá no início da fila estava Mário Quintana. Festeiro, não se limitava a dar o autógrafo. Fazia uma piadinha, um comentário, sorria muito, aproveitava para largar um charme para as mulheres. Uma criança feliz.

As lembranças que tenho do poeta estão sempre relacionadas a feiras ou bienais do livro. Na Feira de Porto Alegre, ele passa com duas sacolas tortas de tantos livros e anuncia ao Sérgio Faraco:

- Vou guardar esses livros ali na padaria! Já volto!

Nada mais natural do que guardar livros na padaria, penso eu, enquanto o poeta se afasta num passo ligeirinho, cumprimentando e sendo cumprimentado por todos ao longo da praça.

Houve um momento em que a atriz Bruna Lombardi, belíssima, se aproximou do poeta. Os dois trocaram poemas, abraços, carinhos, declarações apaixonadas. O poeta rejuvenesceu trinta anos e Bruna tornou-se ainda mais luminosa. Era o amor. Lá pelas tantas, o marido de Bruna ficou cabreiro com tantas cortesias e acepipes. O poeta tinha quase 80 anos, mas, sabe como é, com poeta nunca se sabe. Alguém procurou acalmá-lo dizendo:

- Não se incomode. O Mário é inofensivo.

Pois não é que o poeta escutou? Ouvido de poeta tem dessas perfeições, ouve longe, sobretudo o que não deve. Ficou possesso, avermelhou o rosto e arremeteu contra o autor do comentário. Todos imaginaram que fosse esbofetear o atrevido com um sonetos, talvez cortasse sua jugular com um decassílabo. Nada disso. Mário reteve o soco no ar, mordeu-se de raiva e, mandando o sujeito à merda, foi lampeiro alcançar Bruna, que já atravessara a rua. Logo estavam os dois abraçados, rindo para os céus e para a vida.

Pois ali estava o Mário autografando. A fila andava, mas ele não parecia interessado em fazê-la andar. Preferia conversar e se divertir. Aliás, todos nos divertíamos. As jovens que o Mário atendia no momento davam gargalhadas com as molecagens do poeta, que aproveitava para segurar uma delas pelo braço.

A bem da verdade, devo dizer que nem todos se divertiam. A nossa frente estava um sujeito baixinho, cavanhaque afoito, bolsa a tiracolo. Ligeiramente gordote, calvo convicto, o tipo se remexia de um lado para outro e nos olhava com ares de censura quando eu e Iria caíamos na gargalhada com alguma bobagem dita pelo Mário.

Era um homem sério, pensei, sem entender o que ele fazia ali numa fila de autógrafos de um poeta baderneiro.

Pois quando chegou a sua vez, o gordote disparou uma auto-apresentação extensa diante do poeta. Disse ser professor da pós-graduação de não-sei-aonde, havia escrito um artigo sobre o poeta com um título imenso que não consegui memorizar nem entender, estava de partida para saborear uma bolsa-sanduíche na Inglaterra.

Mário, perplexo, olhava para o sujeito, a caneta big estacionada no ar. Afinal, num intervalo da nota auto-biográfica que o sujeito desfiava, Mário perguntou:

- Seu nome?

O gordote pareceu ofendido. Virou-se na minha direção e me afastou com um olhar agudo. Declarou o nome, que era extenso e solene, e perguntou ao poeta:

- Não lembra de mim? Lá na Feira do ano passado...

Mário abriu os braços:

- Claro! Claro! Como poderia esquecer!

Ato contínuo, autografou o livro. O sujeito se mandou e nós nos aproximamos. Mário, segurando malandramente a mão da Iria, olhou na direção em que sumira o pós-graduado e disse, na maior inocência:

- Nunca ouvi falar! Não faço a menor idéia de quem seja.

E autografou nossos livros se sacudindo de tanto rir.

 

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