Mais do que um retrato na parede

 

 

Roberto Gomes

 

Ao longo de todos esses anos, morando em outras cidades, volto freqüentemente a Blumenau. Ao menos duas ou três vezes ao dia.

É uma voz, no meio da rua, que me lembra o sotaque que já perdi e que agora me parece divertido e delicioso. Um perfume dispara em minha memória a busca inútil do nome da namorada que o usava. Um palavrão em alemão que solto quando algo me contraria – da língua alemã, na qual eu poderia ter aprendido coisas nobres, guardei apenas a arte de xingar no bom e rude estilo germânico.

Lembro de ruas, de casas, de mim mesmo, de figuras da cidade, de amigos, numa ordem (ou desordem) ditada pelo acaso da lembrança.

Foram muitos os amigos, não cabem todos aqui. Gastão Câmara, pequenino e brilhante, foi ser médico em Joinville. Carlos Augusto de Souza veio me acompanhar nesse exílio curitibano: mantemos senhas e encontros secretos, quando falamos de lembranças blumenauenses das quais poucos podem partilhar. Valmor Letzow vive em Paris, numa ilha no meio do Senna, à espera de que os franceses tomem juízo e o proclamem Imperador da França. Cari jogava bola e era brigão – coloquei-o num romance como personagem malvado. Nunca mais soube dele. Dia destes, me disseram que morreu durante uma cirurgia corriqueira. Carlos Wiederkehr era o centro-avante do time: dava chutes em tudo que passasse a sua frente, fosse bola ou não, e vivia com esparadrapos nas canelas.

E há os professores: Mosimann, Joaquim Floriani, Frei Odorico, Maia, José Cury, Ellen Blum. E as ruas que eu percorria jogando bola, indo ao cinema, tomando o rumo dos colégios Dom Pedro II ou Santo Antônio, fugindo da aula para jogar sinuca, fumar escondido, ver um filme no cine Buch. O campo do Palmeiras – onde fui um desastrado aspirante ao time juvenil – e o campo do inimigo mortal, o Olímpico, na Alameda. Os dois sumiram ao fazer uma das fusões mais absurdas do futebol mundial – até o Dr. Hermann Otto Bruno Blumenau, que nunca jogou futebol, reprovaria.

Com o tempo, passei a reclamar de uma Blumenau que já não existe. Me sentia duplamente exilado. Da cidade onde nasci e daquela na qual a cidade se transformou.

Fui a Blumenau em outubro passado, quando do aniversário de meu irmão Orlando. Lá estavam meus outros irmãos: Cid – cópia de meu pai com um bigode que João Gomes nunca usou. Lia – de molecagem, fomos nos esconder do Cid, pneumologista, e fumar um cigarrinho no jardim. A Élia, que eu não via há anos, e de quem sentia saudades. Tiramos uma foto – talvez a única em que estamos todos juntos.

Naquela madrugada de outubro, voltei ao hotel e, de um oitavo andar, fiquei olhando o rio Itajaí-Açu, que rege a geografia da cidade. Majestoso, imenso, forte, perigoso, rolando suas águas com obstinação interminável. Chovia – chove há quase um mês, me disseram. O rio estava acima do nível e, na escuridão em que refletia as luzes da cidade, ele corria com uma força que me assustou. Rápido demais, sedento demais. Atribui meu susto ao fato de já não conviver com ele.

Agora, vejo Blumenau na TV, nas fotos dos jornais, ouço nas rádios. Não tenho feito outra coisa nos últimos dias. Nos vinte anos que lá morei, enfrentei algumas enchentes, mas nada de tão desastroso. Agora, depois da tragédia que todos vimos, já não volto a Blumenau – estou lá o dia inteiro. Vejo, sofro, revejo, lembro, telefono, cato notícias na Internet.

Neste momento, tento escrever o que sinto. O difícil é saber o que sinto.

Descubro que Blumenau não deixou de existir e não é apenas um retrato na parede. Está lá para sempre. Está aqui para sempre. Em cada rosto ou rua que aparece na televisão, em cada reportagem de jornal, em cada telefonema. Digo a mim mesmo, como consolo, que nada poderá destruir essa cidade por onde, segundo o verso de Fernando Pessoa, passa o rio de minha aldeia. Ele, o rio, não é nosso inimigo – é nossa alma. Algumas vezes bela, outras vezes sinistra e contraditória. E, tal como ele, nós daquela cidade somos obstinados. Por isso a cidade voltará a ser o que sempre foi.

No entanto, novas chuvas são anunciadas. O número de mortos cresce. As ruas viram lama. As casas viram destroços. Um homem lamenta a brutal solidão em que foi jogado – toda a sua família morreu: os pais, a filha, a mulher grávida.

Fico a me perguntar: como vai viver esse homem?

 

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