Luiza me escreve uma carta

Roberto Gomes

 

Haverá um dia em que minha neta Luiza – que completou um ano no dia 11 passado – sentará a meu lado e me perguntará, como quem consulta um velho alfarrábio:

- Vô, o que é uma carta?

Eu, quem sabe meio esquecido ou confuso, talvez fique pensando a que carta ela estará se referindo. Carta de baralho? Carta náutica? Carta celeste?

- Ah, sim, carta! exclamarei afinal.

E terei uma enorme dificuldade em explicar do que se trata.

Uma carta exigia certa cerimônia, além de data, texto e assinatura. Implicava um tratamento, por exemplo. Uma certa linguagem que, dependendo do destinatário, não poderia ser banal nem usar gírias.

Também não se escrevia carta a qualquer momento. Era preciso criar o momento propício para uma carta. Eu – e direi isto à Luiza – gostava de escrever cartas à noite, depois que as tarefas do dia haviam rendido sua inutilidade, numa escrivaninha junto à janela e fumando alguns cigarros. Parecia romântico e inspirador. Outros preferiam um cálice de conhaque.

O papel devia ser limpo, alvo, imaculado. Qualquer amassado ou rasura e a carta iria pro lixo. Recomeçava-se. Aliás, eram feitas várias versões.

- Isto se chamava “passar a limpo”, Luiza. A gente escrevia e, depois, copiava tudo de novo, com letra melhor, corrigindo os tropeços gramaticais, caprichando na caligrafia.

- Caligrafia, vô?

- Bom, isso eu explico amanhã. Voltemos à carta.

Dependendo de quem fosse o destinatário, da maior ou menor habilidade do remetente, do estado da caneta – aliás, chamadas “canetas tinteiro”; um dia eu explico –, uma carta poderia exigir meia dúzia de versões. A letra, é claro, precisava ser legível, o que seu avô jamais conseguiu, apesar dos esforços que fez.

Era preciso falar do tempo, contar as últimas...

- Que últimas?

- As últimas notícias, Luiza. Não havia jornal das oito. Aliás, não havia televisão.

Aqui Luiza, abismada, abrirá uns olhos enormes, talvez se indagando de onde teria saído aquele avô tão remoto e pré-histórico.

Embaraçado, eu continuaria:

- Bom, depois a gente escrevia a respeito do assunto principal da carta. Começava assim: “o que me leva a escrever...” Quando estudante, eu escrevia a meu pai pedindo um aumento de mesada. Ou escrevia a minha mãe anunciando o dia em que chegaria de viagem, pedindo que me recebesse com uma tainha ao forno. Outros escreviam para discutir problemas familiares, profissionais, contar das últimas namoradas, de um filme lançado aqui em Curitiba e que só chegaria a Blumenau no ano seguinte.

Depois, era só colocar num envelope, selar e levar ao correio.

- Levar ao correio? ela perguntaria. Não é...

- Não. Não é como o e-mail, direi.

- Ah, sei. E por que não escrevia naquela máquina ali?

Luiza apontaria para uma máquina de escrever portável que conservo numa prateleira e na qual datilografei meus primeiros livros.

- Era considerado falta de educação. Carta devia ser manuscrita. Só muito depois é que se começou a aceitar carta datilografada, mas aí eu não era mais adolescente.

E Luiza me olhará com olhos deslumbrados, como se estivesse ouvindo uma história que fosse produto da mais delirante fantasia.

Enfim, precisarei explicar à Luiza que o e-mail – que é tão prático, tão rápido, tão bom – acabou com a mágica das cartas. E ela, menina sensível e imaginativa, ficará maravilhada justamente por conta desta magia perdida. Cartas guardadas, segredos manuscritos, as últimas notícias, confissões íntimas, inquietações da alma. Tudo isto deixará Luiza com  a imaginação acesa. E ela entenderá que carta não é um e-mail mais longo. É outra coisa. Assim como um romance não é um conto comprido. É outra coisa. Assim como um amor não é uma atração duradoura. É outra coisa.

E um dia Luiza pegará uma caneta (tinteiro, ainda restará alguma), se sentará numa sala quieta e, sob uma lâmpada pálida, talvez preocupada, talvez com saudades, colocará uma data sobre um papel imaculado e escreverá:

“Querido vovô,”

E descobrirá o que é uma carta.

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