Livro em terra de cegos

 

 

Roberto Gomes

 

Quem me contou foi meu amigo Eleotério, que todos os leitores curitibanos conhecem como um livreiro apaixonado por leitura. Dia destes, numa feira do livro, alguém chegou a uma atendente de uma livraria e perguntou:

- Por favor, tem livro do Salgado?

E a atendente, muito solícita:

- Não tenho. Livro de culinária é ali na terceira barraquinha.

As piadas do gênero existem às centenas, entre elas a do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, encontrado na prateleira de Botânica, e do romance do Cristóvão Tezza, Ensaio da paixão, encontrado entre obras de psicologia.

Trata-se de um tema maldito na cultura brasileira e retrata os descaminhos que o livro percorre no Brasil, país que chegou atrasado ao mundo da palavra escrita e que desembarca capengando no mundo da informática.

Hoje, as pequenas e médias livrarias estão sumindo do mapa das cidades. Há uma década, eram referência em inúmeras cidades brasileiras, um lugar de encontro e de debates, além de antro de fofocas, um dos móveis da chamada vida cultural.

Era nas livrarias que se podia pesquisar a respeito dos assuntos mais diversos, encontrando lançamentos, obras básicas, obras clássicas, e mesmo aquelas que dormitavam nas prateleiras durante anos e que cabia aos leitores encontrar depois de intensa busca como rato de livraria, aliás, uma das mais respeitáveis atividades do ser humano.

Hoje, as livrarias médias e pequenas já não são locais de encontro. A maior parte delas desapareceu ou se transformou numa modesta mostra de livros cercados por uma papelaria e uma banca de revistas.

Para os otimistas, as livrarias migraram para o universo dos shoppings, onde ocupam corredores iluminados a néon, ao contrário das livrarias tradicionais, que amavam ser meio escuras e de iluminação escassa. No entanto, não conheço ninguém que se reúna para bater papos sobre livros e adjacências em livrarias de shopping, ambiente plastificado e neutro, no qual ninguém conhece ninguém e as relações humanas possíveis duram o tempo que é necessário para se ir da prateleira ao caixa.

Mas não é só. Se nas livrarias anteriores era possível pesquisar títulos e autores e temas, fuçando lombadas, nas megastores dos shoppings isso é impossível. Em primeiro lugar, os atendentes não entendem nada de livro ou autores ou temas. Em segundo lugar, estas livrarias estão voltadas para o livro descartável, aquele que acaba de ser lançado e que logo será esquecido para sempre, os best-sellers do momento, fabricados pela televisão, pelo cinema ou pelo último escândalo nacional. Se o prezado leitor estiver a procura de um livro lançado há um ano, mesmo que de autor conhecido, pode tirar o cavalinho da chuva. As megastores calculam a ocupação de seu espaço em termos de alta-rotatividade – portanto, os livros de um ano atrás já são velharia. No seu lugar, está a última novidade escrita por alguma celebridade debilóide da qual ninguém se lembrará dentro de meio ano.

O panorama seria apenas triste e algum adepto do mundo globalizado poderia dizer que estou sendo nostálgico. Estou, mas com toda razão: em 1999, tínhamos livrarias em 1948 cidades brasileiras. Hoje elas estão em apenas 1669 cidades. Uma queda de 15,8%.

Como resultado, os 5564 municípios brasileiros contam hoje com cerca de 2800 livrarias. É muito pouco, ainda mais se considerarmos a concentração delas no eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre, os três locais de maior índice de leitura no Brasil. Para os demais, sobra aquela papelaria com uma prateleira de livros lá no fundão.

Curiosamente, neste panorama infeliz, livreiros e editores estão em luta pela adoção ou não do preço fixo para o livro. Os pequenos livreiros imaginam que, com preço fixo, poderão enfrentar as grandes redes, enquanto que estas não abrem mão dos descontos que seu poderio financeiro permite. Os primeiros, imaginam que aumentarão as vendas e as tiragens das obras e, os segundos, juram que desejam apenas beneficiar os leitores com preços melhores.

Parece o quadro de Brueghel, o Velho, no qual cegos conduzem outros cegos. Mas o debate pode prosperar. O Brasil é notável em debates inúteis e falsas polêmicas.

Enquanto isso, ao vendedor, as batatas.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br