Literatura fantástica
e inacreditável

 

Roberto Gomes

 

 

J.M.Kersten, escritor brasileiro que mora em Berlim, Alemanha, enviou a sinopse de um romance a Hansen Castrop Weil, diretor da editora Kropp&Kropp. Abaixo, a sinopse. Ao final, a resposta do editor.

“Prezado Herr Weil.

O personagem principal nasceu no sertão nordestino, de família pobre. Veio para São Paulo num pau-de-arara. Foi líder operário e, anos depois, chegou a presidente do país. Tinha como aliados líderes estudantis, guerrilheiros, operários. Contava com a simpatia de intelectuais. Dizia-se socialista.

Ao assumir, nomeou um ex-diretor do BankBoston para o Banco Central. Na Fazenda, colocou um médico fiel à política neoliberal de sempre. Não negociou as dívidas do país, não fez reformas estruturais, achatou salários, aumentou juros, culpou os aposentados, acumulou superávit primário, distribuiu bolsas. E declarou que jamais foi socialista.

A trama se passa num momento de crise. Denúncias de corrupção, seqüestro e morte de um prefeito. Surgem várias histórias paralelas. Um político que o apóia denuncia a rede de corrupção no governo: subornos a deputados e superfaturamento de obras públicas. Muitos são investigados, provas abundam, ninguém é punido. O presidente diz que não sabia de nada. E viaja.

Em contraponto, a história de um chamado homem do povo, também migrante, que passou 17 anos na cadeia sem ser culpado. Ficou cego. E a epopéia do caseiro que sabia de histórias escabrosas que provocam a queda do ministro e a falência de uma senhora que agenciava moças de prendas diversas.

É quando um político da oposição, gordinho, se declara em greve de fome. Sua mulher posa a seu lado com ares de madona. Na medida em que a história segue, o político vai emagrecendo. Quilos de reportagens. Litros de imagens.

A velha oligarquia baiano-nordestina, ao lado de neoliberais de plagas sulistas, critica a ética do governante. Os conservadores assumem a defesa dos bons costumes e da retidão moral. Dos outros.

O presidente não se dá por achado e finge que é líder dos pobres e oprimidos da latino-américa. Viaja muito. Mas, no sétimo capítulo, dois de seus aliados latino-americanos lhe passam uma rasteira. Viaja de novo, sem sair do lugar.

Na sala envidraçada, o garotinho gordinho – agora ex-gordinho – deixa a barba crescer e emagrece. É levado a um hospital e descobre que o sistema de saúde está falido. O presidente declara que o sistema de saúde do país é o melhor do mundo e usa sua metáfora preferida – e única –, o futebol, dizendo que não se mexe em time que está ganhando. Para esquecer a caipirinha que abandonou, toma banho de mar e joga pelada.

Aproximam-se as eleições. Os neoliberais se unem e criticam o governo por fazer o que eles sempre fizeram. O governo busca apoio num partido de aluguel, oferecendo cargos e verbas. O tal partido resolve não ter candidato próprio. O senador de maior prestígio do partido do governo é pressionado a abandonar a candidatura em favor de antigo político do partido de aluguel.

No décimo capítulo, o ex-proprietário de um Land Hover denuncia que o plano era arrecadar 1 bilhão de reais e a coisa pega fogo. Todos correm para todos os lados, exceto o presidente, que vai descansar numa fazenda.

Não revelo o final. Será sensacional, digno de Agatha Christie. Envolve o político em greve de fome, o inocente preso 17 anos, os corruptos que pediram aposentadoria, um ex-guerrilheiro que fuma charutos caríssimos, uma das moças de prendas diversas. Atenciosamente, J.M.Kersten.

Em resposta, o editor escreveu:

“Prezado Herr J.M.Kersten.

Não publicaremos seu romance. É uma coleção de absurdos! Onde já se viu líder operário colocar um ex-diretor do BankBoston no Banco Central? E declarar que não sabe nada. O que é isto? Um Sócrates tupiniquim? E este gordinho que emagrece? O que é isto? Um Gandhi tropical? E estes oligarcas, clamando pela moralidade?! E só o cego vai preso?

Seu romance carece de verossimilhança. Não despertará interesse. Pura fantasia! O senhor exagerou. Jamais aconteceria. Tente contos de terror, algo assim. A literatura fantástica acabou. Ou, em bom alemão: kaput. Auf Wiedersehen! Hansen Castrop Weil.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br