Lições da bola

 

Roberto Gomes

 

 

A rua era de barro – mas admitia pedras no meio do caminho. A cada jogo deixávamos para trás lascas de unhas e porções de pele. O movimento dos carros, que era pouco, não atrapalhava. Eles buzinavam lá na esquina, duas quadras abaixo, e nós parávamos o jogo. O carro passava solene, não raro com o sorriso e o aceno cúmplice do motorista.

Os limites do campo eram estabelecidos no inicio de cada partida: começariam na esquina, na linha das casas ou da calçada? Dependendo das demarcações feitas, não havia lateral: a bola poderia bater no muro e voltar ao jogo. Outras vezes, fazíamos um risco no barro, o que era considerado mais chique. A rua se transformava num estádio.

As traves eram dois marcos feitos com pedras ou latas, não raro um chinelo velho. Uns com camisa, outros apenas de calção, os pés no chão de barro, estávamos prontos para jogar. Faltavam apenas duas coisas: a bola e as regras do jogo.

A bola podia ser de borracha – o que era mal visto, como se fosse coisa de segunda divisão –, ou de couro duro, em gomos altos, de costura grossa, que doía no peito dos pés. Ou era uma bola de meia. Explico aos mais jovens: bola de meia era um maçaroca que se fazia com os materiais mais diversos, panos, trapos, roupas velhas, pedaços de jornal, que eram socados em forma de esfera e envoltos por algumas meias velhas. Era a bola.

Aí vinha o principal: as regras, decididas com a bola no centro do campo e antes de se escolher os dois times. Haveria ou não lateral? Num lado da rua havia um muro, no outro, um terreno baldio – portanto, num dos lados haveria lateral, no outro, não. Combinado? Combinado. Falta numa área de quatro passos era pênalti, batido de uma distância de seis passos. Não, cinco. Cinco, está bem. Três escanteios vale um pênalti. Evitava-se assim a retranca e a jogada preferida do zagueiro burrão: o chutão para a linha de fundo. Lateral bate com o pé ou com a mão? Tanto faz. Duração do jogo? Cinco gols vira, dez acaba. Marcar tempo no relógio estava fora de cogitação.

A escolha dos times era o momento mais tenso. De regra, os dois melhores craques – ou os dois sujeitos mais metidos a besta – faziam as escolhas. Par ou ímpar, e um deles começava a escolher. Primeiro, os mais habilidosos. Depois, os zagueiros duros de bola, mas eficientes. Por fim, os pernas de pau, que vinham, humildes, se juntar ao grupo, na ponta esquerda ou no gol.

Estabelecidas as regras, a bola rolava. A tarde inteira.

Era assim que aprendíamos coisas básicas. Jogávamos porque nos dava prazer. Criávamos os limites do campo, as regras do jogo e as formas de decidir as questões em disputa. Não havia juiz – ninguém era louco e todos queriam jogar –, e aprendíamos a decidir as aplicações das regras entre nós. As questões duvidosas eram ganhas por quem tinha maior capacidade de argumentação, mas também, em alguns casos, por quem era melhor de briga ou falava mais alto. O mundo a nossa volta não se mostraria muito diferente.

É claro que, com a bola rolando, o que valia era a habilidade ou o empenho de cada um. Mas estávamos aprendendo um bocado de sociologia e política.

A igualdade, por exemplo. Mas também a diversidade e as variadas interpretações: foi ou não pênalti? O direito de defesa e a argumentação. O poder dos que tinham braços mais fortes, língua mais afiada, voz mais agressiva, e o poder daqueles que estavam com a razão e sabiam argumentar. Mas também os privilégios daqueles a quem os deuses haviam brindado com talentos especiais: os craques. Éramos iguais, mas não éramos iguais. Iguais perante as regras estabelecidas, mas desiguais quando a bola rolava – e isto era justo. Algo precioso de se aprender.

Comecei a desfiar estas lembranças pensando em coisas que acontecem hoje no desastroso mundinho em que vivemos. Mas já me esqueci delas. Será que vale a pena mencionar aqui os burladores de regras, os trogloditas do sucesso, os mentecaptos do poder, os ladrões das galinhas dos ovos de ouro? Não vale. Fiquemos com o jogo e com a doce nostalgia de um tempo que – aí de nós! – se foi para sempre.

Lembremos apenas de Mário Quintana: “Eles passarão. Eu passarinho”.

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