Lendo as folhas

 

 

 

Roberto Gomes

 

 

Está difícil entender o mundinho. Ao menos para mim, que nunca fui hábil nesta matéria. Há duas semanas, li nas folhas que Bento XVI lançará um documento autorizando a missa em latim. Fiquei perplexo: não seria o contrário? Missa não é – e sempre foi – em latim? Em todos os casos, se está autorizando, alguém deve ter proibido em algum momento passado. Pronto: não entendo. A igreja levou séculos para dar status quase sagrado ao latim e o proíbe?

Para mim, missa é em latim. E não aceito discutir o assunto. O papa não deveria autorizar o latim, deveria torná-lo obrigatório. Na última missa que assisti, faz tempo, ao invés de Canto Gregoriano, ouvi umas melodias chinfrins e duas violas desafinadas. Missa em latim é muito melhor.

Mas também nas coisas terrenas predomina o caos. Vejam: há um movimento reivindicando que se descomplique o Supersimples na Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas. Mas não é Supersimples? Eu, que venho de uma época em que as missas eram todas em latim, acho que só se pode descomplicar o que é complicado. Ou não?

Complicado mesmo é o mundo do futebol. Dia destes, a bandeirinha Ana Paula, conhecida por soberbos predicados – que em breve aparecerão nas páginas da revista Playboy, segundo dizem as folhas nesta semana – foi malhada em público ao anular um gol do Botafogo. Sofreu com demonstrações chulas de falta de educação e machismo transbordante: foi xingada por um espumante diretor do clube, que questionou a competência feminina em coisas do futebol. Foi suspensa por algumas partidas. Já no jogo do Paraná com o São Paulo, houve um gol anulado mas, como o bandeirinha era um homem (ao menos visto à distância) não se ouviu ninguém esbravejando contra homens no futebol e sua incompetência ao arbitrar. O bandeira – cujo nome felizmente ignoro – não foi suspenso. E não pensem que sou torcedor (um dos cinco ou seis) do Paraná. Sou torcedor do Atlético, do latim e da presença da Ana Paula na lateral do campo, pertinho da câmera.

Mas as folhas nos reservam outras surpresas. Leio sobre o barraco em que está metido o senador Renan Calheiros – um ex-ministro de Collor jamais nos decepcionaria, convenhamos. Que ele tenha amante bonita e uma filha fora do casamento, que se diga arrependido e que peça perdão à família, me parece não ter a menor importância pública. É problema dele. Mas, se gasta com a ex mais do que recebe como senador, se o pagamento é feito em dinheiro vivo por um funcionário de empreiteira, eis algo que precisa ser explicado. Aliás, ele apresentou notas frias para garantir que ganhou R$ 1,9 milhão nos últimos quatro anos vendendo boizinhos. Duas coisas que não entendo: mesmo provando que ganhou esta grana, nada garante que pagou de seu bolso à amante; segundo: não carecia de notas fiscais (frias ou quentes), bastaria o senador tornar pública sua declaração ao Leão. Pois o Senado em peso – e como pesam aqueles senhores bem alimentados! – armou o maior circo para nos convencer de que se trata de uma questão privada. Privada? Tudo bem. Mas eu não entendo, como não me conformo com a proibição anterior do latim e a suspensão da Ana Paula.

Na verdade, a enrascada do senador me lembrou uma nota que li nas folhas há quinze dias e que, esta sim, entendi. No Japão, dois políticos contra os quais foram levantadas suspeitas de irregularidades em concorrências públicas, cometeram suicídio. Que belo exemplo! Antes de serem enxovalhados em público, ao invés de fazerem cara de pau diante de câmeras e microfones, os japoneses cometeram suicídio. Votaria neles, não estivessem mortos. Assim, eu, muitas vezes acusado de ser contra tudo, quero deixar claro que, além de ser a favor do Atlético, do latim na missa e da Ana Paula na lateral do campo, sou favorável ao suicídio de parlamentares como alternativa às CPIs.

Vejam bem: é método mais econômico. Basta uma bala ou uma corda. Decide-se de imediato, ao invés dos meses necessários às comissões parlamentares. A punição fica garantida, a não ser no caso de suicidas incompetentes – que seriam condenados à prisão perpétua pelo fiasco. No entanto, conhecendo a tradicional malandragem dos políticos brasileiros, creio que eles declarariam em público – pensando amealhar votos e fama de honestos – serem favoráveis ao suicídio dos suspeitos, mas em particular encontrariam um meio de, suicidando-se, continuarem vivos. Muito vivos.

Enfim, se não entendo o que circula nas folhas, não posso ser dito um descrente ou pessimista. Acho que o mundinho difícil em que vivemos tem solução. E não custa caro. Uma bala, uma corda. E vergonha na cara, como exigia o Capistrano de Abreu.

 

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