John Kennedy e Abraham Lincoln:

as ilusões das semelhanças

Roberto Gomes

 

Recebi uma dessas apresentações que inundam a internet. Coisa antiga, pois a internet vive em moto perpétuo: quando algo começa a circular nela, não cessa jamais e retorna sempre. Independentemente de seu valor ou de seus equívocos. No caso, trata-se daquelas tais coincidências entre Lincoln e Kennedy.

As semelhanças: ambos foram eleitos ao Congresso num espaço de cem anos: 1846 e 1946. Os mesmos cem anos se repetem na eleição presidencial: 1860 e 1960. Seus sucessores nascem no espaço de cem anos e ambos se chamavam Johnson: 1808 e 1908. Na Internet circula que os mesmos cem anos separam os nascimentos de seus assassinos: 1839 e 1939. Não é verdade. Booth nasceu em 1938.

Os dois se preocupavam com os direitos civis. Foram assassinados, com tiros na cabeça, sendo que o secretário de Lincoln se chamava Kennedy e o secretário de Kennedy... advinhem. No mais, Lincoln foi assassinado no teatro Ford e Kennedy num carro que não era Chevrolet.

Se alguém procurar, encontrará outras semelhanças. A razão é simples: a consciência, dizia William James, é seletiva. É um jogo de armar em que você escolhe as peças e cria a regra do jogo. Dá tudo certo. Salvo o que dá errado, é claro, mas isso se deixa de lado.

Vamos ao que dá errado. Kennedy nasceu em Massachusetts, Brooklin, reduto democrata, em 1917, filho de uma rica família católica. Lincoln nasceu em 1809, no Kentucky, de família pobre, e foi autodidata. Ao ingressar na política, alista-se no recém formado Partido Republicano, em 1858. Freqüentava a igreja prebisteriana.

Kennedy teve todas as facilidades de um jovem rico, cursou as melhores universidades e gozou de uma juventude cheia de glamour. Lincoln foi gerente de depósito, de posto de correio e exerceu outras funções humildes até se formar em direito, em 1836.

Lincoln, de início, seria apenas contrário à expansão do escravismo para estados que não o possuíam. Movimentos da época tinham como projeto mandar os negros de volta para a África. Ou para a América Latina, um departamento vizinho.

Kennedy defendeu uma nova legislação de direitos civis. Mas não foi o pacifista que muitos idealizam. Entrou numa aventura que pretendia derrubar Fidel Castro, o que resultou na fracassada invasão da Baía dos Porcos, e sua disputa com Kruchev – outro cabeçudo – levou o mundo à beira de uma hecatombe nuclear. Acabaram recuando. Sentiram o tamanho do pepino.

Em 1952, Kennedy elege-se senador por Massachusetts e, no ano seguinte, casa com Jacqueline Lee Bouvier, rica, bela e fotógrafa. Tiveram três filhos. Lincoln casou, em 1842, com Mary Todd, mulher culta, da elite de Kentucky. Quatro filhos.

Alguns historiadores insinuam que Lincoln teria sido homossexual, o que explicaria o casamento tumultuado e sua amizade, na juventude, com Joshua Speed, com quem compartilhou a cama por quatro anos.

O complicado é que o biógrafo que faz essa afirmação é daqueles intelectuais gays que reviram os lençóis de machões tentando retirá-los do armário. Como pergunta um internauta: “Does it matter?

Kennedy, mulherengo, era o avesso de Lincoln. Além disso, a senhora Mary Todd em nada lembra a bela Jacqueline, tanto no charme quanto nos casos extra-conjugais.

Em 22/11/1963, sexta-feira, visitando Dallas, Kennedy foi assassinado por Lee Harvey Oswald. Lincoln foi assassinado em Washington, no dia 15/04/1865, sábado, por John Wilkes Booth.

Nada bate, portanto. Mas, como consolo, ofereço três coincidências que escaparam aos caçadores de semelhanças. O primeiro nome de Lee Oswald é um dos sobrenomes de Jacqueline. E há outro Lee na história. O general sulista Robert Edward Lee, derrotado por Ulysses S. Grant, comandante-em-chefe das forças federais de Lincoln.

Três Lees e nenhuma explicação. É o saldo.

 

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