Será o Kafka?

Roberto Gomes

 

Abriu a porta do apartamento, largou a pasta com trabalhos dos alunos sobre a mesa da sala e descalçou os sapatos. Deu dois passos na direção do corredor. O azar da barata é que em cima da mesa estava o jornal. Quando ele a viu tentando correr para debaixo do balcão, apanhou o jornal e abateu-a com um golpe preciso.

Observou a barata. Esmagada contra o chão, mas ainda viva: as antenas retorciam-se e uma das pernas patinava do lado esquerdo. Apanhou o jornal, transformou-o num rolo firme e sólido. A barata remexia-se. Mas, quando ergueu o braço para desferir o golpe final, uma pergunta explodiu em sua cabeça:

- E se for o Kafka?

Era uma loucura, mas lhe pareceu uma hipótese razoável para um professor de literatura. Recolocou o jornal sobre a mesa, olhou a barata mais de perto. Sentiu um alívio: estava viva. Se fosse Kafka – ou seja, o Sr. K. que se transformou em um inseto repugnante – era preciso tomar alguns cuidados. Cuidados humanitários.

É verdade que, depois de um dia tenebroso, estava exausto. Quase se perdera no labirinto das saletas do departamento de pessoal da universidade, fora ao Instituto de Previdência em busca de um atestado, dera quatro aulas para alunos entediados. Talvez delirasse. As chances de que ali, achatado contra o chão da sala, estivesse Kafka eram mínimas. A quantos quilômetros estavam de Praga? Longe demais. Depois, Kafka morrera há mais de 80 anos. Tolice. Eis o resultado de uma vida inteira dedicada ao ensino – professores acabam loucos, embora só os normais, é claro.

Pensou em jogar a barata no vaso sanitário, mas permaneceu olhando para ela, assustado com a certeza que explodira em seu cérebro: é Kafka. Não havia dúvida. Ou havia?

Estava nervoso, admitiu. Quem sabe se sentisse culpado pela pouca atenção que dera ao jovem escritor que o procurara naquela tarde. Sempre há um jovem escritor, com seu jovem livro debaixo do braço, que acha que o professor de literatura pode ser a sua salvação. Abrirá para ele as portas das editoras e das igrejinhas literárias. O jovem o olhava tenso e ele lembra agora que se sentia exausto. Eram cinco da tarde, acabara de receber um telefonema da namorada cancelando o fim de semana juntos.

Lá estava o jovem a sua frente. Pálido, magro, queixo agudo, olhos cheios de espanto – só faltava o chapéu negro. Poderia ler seu romance? perguntou o jovem. Só 395 páginas. Sentiu raiva.

- Não, disse.

O jovem se assustou. Ele tentou amenizar:

- No momento, não. Estou com três alunos defendendo dissertação, preciso atualizar meu currículo Lattes e o resto você sabe: aulas, aulas, alunos, alunos.

O jovem, em voz sussurrada, perguntou quando poderia procurá-lo e ele tornou a sentir raiva.

- Não fale baixo, disse. Um escritor não pode se intimidar!

O jovem o olhou com medo e sumiu lentamente rampa abaixo, enquanto ele aguardou o elevador.

Agora se perguntava porque fizera aquela maldade. O rapaz era bom aluno, tirava boas notas. Era tímido, é certo, mas isso não é um defeito. Fora cruel, pensou, observando a barata se arrastando pelo chão. Não havia dúvidas, era Kafka. O aluno tímido também era Kafka. Invadira sua casa para deixar o original e, não se sabe a razão, metamorfoseou-se em barata na sala de seu apartamento. Era ele.

Foi ao escritório e retirou uma folha da impressora. Recolheu a barata do chão. Apanhou na estante uma edição de Metamorfose e colocou a barata sobre o livro. A barata pareceu agradecer e espichou uma perninha, as antenas bêbadas. Se for uma barata, amanhã estará morta. Caso contrário, voltará a ser Kafka, e estará longe pela manhã. Olhou uma última vez para a barata, desligou a luz do escritório e fechou a porta.

Dormiu pesadamente e acordou agitado. Pulou da cama. A barata não estava sobre o livro. Procurou-a por debaixo da mesa, das cadeiras, nada. Sumira. Foi quando viu que a janela estava aberta. Nunca deixava a janela aberta. A certeza voltou: era ele, pensou. Era ele.

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