Habeas corpus e haja paciência

 

 

Roberto Gomes

 

 

Antenor da Silva, morador aqui da Vila, costuma passar os finais de tarde conversando no bar do cego Tião. Depois de pegar no pesado em alguma obra das seis da manhã às cinco da tarde, ele estaciona no bar e fica conversando fiado. Como diria minha mãe: um sujeito incapaz de matar uma mosca.

Pois Antenor, de hábito tão sereno, anda na maior agitação. Bombardeado, como todos nós, por uma quantidade imensa de informações via jornais, televisão, rádio, está perplexo com as notícias a respeito de trambiques, roubalheiras, desvios de verbas, super faturamento de obras públicas, lavagem de dinheiro.

A quem estranha sua aflição, ele mostra uma lista, elaborada com a ajuda dos demais freqüentadores do boteco, contendo a sucessão de escândalos: Proprinoduto, Máfia dos Gafanhotos, Escândalo dos Frangos, Caso Waldomiro Diniz, os Vampiros, desvios na Bolsa-Família, a dupla sertaneja Mensalão e Mensalinho. Há mais – na Wikipédia constam cerca de cem escândalos na era Lula – mas a aflição de Antenor não permite que leia a lista até o fim. Diz que a situação está tão absurda que, mal a gente consegue entender quem são os Sanguessugas – bicho antigo que imaginava extinto e confinado a filmes passados em selvas distantes – e lá vêm as novas hordas de quadrilheiros: Renascer em Cristo, Juízes que vendem liminares, Empreiteiros Unidos assaltando cofres públicos.

Antenor, como os leitores vêem, é uma alma pura, que suspira ao lembrar de tempos remotos nos quais se tinha notícia de algo chamado Escândalo da Mandioca – do governo Figueiredo, apropriadamente – e só surgia escândalo novo um ano e meio depois. Agora, diz ele, parece banda de rock: nunca se ouviu a última, sempre tem outra.

Romântico, Antenor inventou novo motivo para sofrer. Está com dó do sujeito que, na Polícia Federal, é encarregado de dar nomes às operações, pois é certo que há algum inspirado literato que bola aqueles nomes com tantas referências eruditas quanto uma frase de Joyce.

Diz ele que imagina um policial federal, naquele fardamento negro com letras amarelas, colete à prova de bala, pescoço largo, a cabeça escondida por um capuz, debruçado numa mesa, mordendo com ferocidade um lápis à procura de inspiração para o nome da próxima operação. Todos a postos, dentro de aviões, helicópteros e camionetes, e o poeta transpirando. Daria uma charge do Solda.

- Então, grita o comandante, sai ou não sai este nome?!

- Já vai, chefe!

Sem nome, a operação não pode sair. Situação que me lembra algo que Flávio Colin, um artista notável, me contou. Quando trabalhara no jornal O Globo, enquanto suava diariamente para fazer a ilustração de uma crônica, o encarregado do clichê, encostado na porta, tamborilava o pé:

- É pra hoje, artista?!

Pra hoje. Senão, vejamos. Há os nomes poéticos: Passagem, Harmonia. Aqueles que vieram do cinema: Bye-bye Brasil, Chacal. Não sei como ainda não pensaram em Terra em Transe.

Os míticos são maioria, talvez pela formação clássica do poeta encarregado: Pégasus, Caronte, Curupira, Narciso, Pandora, Matusalém, Perseu, Medusa, Ícaro, Exodus, Sansão, Morpheu, Eros. Ao lado destes, alguns pegam pesado: Roupa-suja, Mercado-negro, Tanque-cheio, Com Dor, Furacão, Navalha. Talvez o poeta estivesse de férias, o que explicaria  nomes apelativos – Alcatéia, Predador – e televisivos: Big Brother, Terra Nostra, TV Pirata. Mas, convenhamos, erudição tem limite, o sujeito acaba apelando. Afinal, desde 2003, o site da PF informa que são 344 operações.

Seja como for, há pinceladas literárias: Buritis, Feliz Ano Velho, Vidas Secas, Macunaíma, Casa Velha. Irônicos: Fraude-zero, Amigo da Onça, Telhado de vidro. Históricos e geográficos: Mamoré, Zumbi, Pindorama, Cavalo de Tróia, Pororoca. Nomes de animais: Águia, Sucuri, Anaconda, Sanguessuga. E duas preciosidades Control+Alt+Del e – ai de nós! – Curitiba.

Tanta criatividade merece registro em alguma publicação literária.

O diabo é que Antenor descobriu que, apesar do barulho das operações e dos escândalos, preso mesmo, só seu sobrinho, Beto Perneta, flagrado afanando num mercadinho aqui da Vila e que, não podendo correr, acabou em cana. Incomunicável e sem habeas corpus, que isso custa caro.

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