Grandes desinvenções inéditas
Roberto Gomes
A mídia,
com grande freqüência, noticia
invenções ou resultados de pesquisas – normalmente de psicólogos ou biólogos de
alguma universidade norte-americana – a respeito de questões de importância duvidosa.
Por isto resolvi divulgar algumas invenções que, não tendo o apoio da mídia,
estão destinadas a ficar no que os poetas românticos chamavam de olvido, o que
deve ser muito pior do que ficar no limbo.
Vejamos.
O pesquisador Normann O’Toll Borges (da MCK Foundation),intrigado com o
fato de que as tampas de pastas de dentes têm a tendência suicida de
arremeterem na direção do ralo das pias, onde entalam definitivamente, criou um
micro chip a ser instalado nas tampinhas rebeldes. Sensível à queda, dispara um
tripé de titânio que, uma vez armado, evita que a tapa mergulhe no ralo. Diz
ele que tomou como parâmetro o modo como os gatos impedem que os coloquemos em
caixas ou porta afora. Funciona e é útil.
Já um grupo de
pesquisadores portugueses (sem ironias, por favor), Manoel, Joaquim e José,
intrigados com o fato de que uma fatia de pão sempre cai no chão com o lado da
manteiga para baixo, cruzou um grão de trigo com um gene de tartaruga, o que
faz com que, caindo, a fatia vire de costas, pois é conhecida a pulsão (Trieb, diria Freud) das tartarugas em caírem sempre
de pernas para o ar. O que era um drama para as tartarugas, virou uma solução
para as fatias de pão, evitando que emporcalhem a casa.
O invento foi bem
sucedido, mas, ao ver de um cientista norueguês, tem o grave defeito de não
evitar o desperdício da fatia, que não poderá ser comida, pois fica suja no
lado sem manteiga, com riscos de contaminação. Em seu laboratório de física
nuclear composta, ele conseguiu inserir um ímã no gene do trigo transgênico português, o qual impede que a fatia alcance o
chão. O princípio é simples, diz ele, e é o mesmo que faz com que certos trens
flutuem sobre os trilhos: repulsão magnética. Quase incompreensível para um
leigo, mas o que importa é que a fatia, mesmo sofrendo uma queda, não suja o
lado da manteiga (princípio português) e pode ser comida sem susto e sem poeira
do chão da cozinha (princípio norueguês).
E não se imagine que as
contribuições engenhosas da ciência modernas se limitem à tecnologia mecânica.
Nas chamadas áreas humanas também existem contribuições magníficas, embora
desconhecidas do grande público. Uma delas é a máquina de desentortar frases, parágrafos
e textos em geral, criação de um sobrinho do inventor da máquina de desentortar
bananas, que não tinha utilidade alguma, como é sabido.
Tal máquina, de concepção
simples, consiste numa espécie de scanner onde se coloca o texto a ser
desentortado. O produto da digitalização é enviado a um software denominado Hemingway Easy,
capaz de transformar frases quilométricas e incompreensíveis em frases curtas e
inteligíveis através do módulo Point Finale/Paragraph, desenvolvido a partir de equações
criadas por Pascal, que era bom nisso de aforismos e frases precisas.
Além disso, o texto é
submetido a um rigoroso processamento de busca e apreensão de adjetivos
voláteis e advérbios esdrúxulos, a uma rigorosa investigação de anacolutos e
mesóclises, colocando as frases mais retorcidas em ordem direta. Muito útil
para depurar textos em advogadês, economês,
corporativês, filosofês, tornando
inteligíveis até mesmo dissertações, teses acadêmicas e discursos em academias
de letras.
Atualizado on-line,
substitui a expressão “este país” por “Brasil” sempre que algum digitador
fraqueja diante do conhecido cacoete. Também encontra alternativas em língua portuguesa
decente para “a nível de”, “como um todo”, “eu penso
assim” – não exigindo de seu usuário o domínio de um vocabulário de mais de 30
palavras.
Claro, há limites para
tanta engenharia. O prodígio lingüístico não é capaz de encontrar
sujeitos ocultos, habilidade exclusiva de um escritor curitibano cheio
de malícia, o notável e ultimamente recluso Manoel Carlos Karam.
Para tanto é preciso que o usuário tenha um vocabulário amplo, um domínio pleno
da linguagem, senso apurado do que seja literatura e uma malandragem estética
refinada. Para se beneficiar desta terapia literária, aconselhamos a leitura do
livro do Karam (ou do Manoel ou do Carlos, tanto faz)
– Sujeito Oculto – quando tudo, exceto o mundo
a sua volta, parecerá adquirir sentido.
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